sábado, 18 de dezembro de 2010

Warat: quando a genialidade encontra a sensibilidade



Este foi um ano especialmente difícil para mim por razões que por ora não me sinto à vontade para expor. E enquanto fico "na torcida" para que 2010 termine (apesar de admitir que os anos não deixam de ser simbologias, como quase tudo na vida), eis que vem uma notícia que me entristeceu deveras: o grande Prof. Luis Alberto Warat deixou este mundo na última quinta, dia 16.

Há cerca de dois anos, em 14/11/2008, tive oportunidade de aqui mesmo no blog, postar um texto em homenagem ao grande Mestre, de modo que não estou nesta nova homenagem, agora póstuma, fazendo qualquer "necrofilia da arte", como diria Caetano Veloso. Tive a feliz oportundidade de reverenciá-lo ainda em vida.

Contudo, não dá para negar que como jurista, Warat foi um artista. A arte com a qual escreveu seus textos jusfilosóficos e realizou suas conferências deixará muitas saudades desse "jurista baiano", como se autointitulava, apesar de ser brasileiro naturalizado e argentino de nascimento.

Em minha modesta opinião, Warat foi o mais original jurista da América Latina em todo o século XX. Em tempos de "samba de uma nota só" e "mais do mesmo" jurídicos, o "gordo", como carinhosamente chamado pelos amigos, foi um pensador invulgar, ousado, capaz de com sua palavra mordaz e ferina, abalar estruturas ilusoriamente sólidas do mundo do direito. Ao mesmo tempo, não era um simples desconstrutivista: a percepção da ausência da sensibilidade no mundo jurídico o fez dedicar-se às questões humanistas de um modo diferente, trazendo os aspectos psicológicos e psicanalíticos mais amplos para o debate jusfilosófico. A presença do amor, da magia, do surreal, do desejo e até de suas várias "ecologias" seriam impensáveis no direito sem as singulares reflexões de Warat.

No meio jurídico e filosófico há muitos eruditos (alguns nem tanto assim) metidos a gênios, que confundem erudição com genialidade. Eurditos talvez até tenhamos em quantidade razoável. Gênios, contudo, com arroubos criativos verdadeiros, quase nenhum. Quem conheceu Warat, contudo, pode afirmar que conheceu ao menos um dos pouquíssimos e verdadeiros gênios do mundo jusfilosófico.

Apesar dele ter nos deixado, ainda bem que tive a felicidade de conhecê-lo e com ele trocas ideias e impressões pessoais, ainda que não com demasiada frequência.

Conheci Warat em 1999, quando praticamente iniciava minha ainda curta carreira docente. Até então, ele era para mim um ilustre desconhecido, dos que ouvimos falar mas não lemos. Um amigo em comum, Albano Pêpe, o trouxe a Pernambuco para alguns eventos sobre as relações entre mediação e sensibilidade. Não obstante eu ser então um completo neófito, Warat conversou comigo com a mesma atenção e gentileza com que conversou com todas as outras pessoas que estavam nos eventos, sem discriminação titulatória ou de saberes.

Fiquei com vergonha de na época ainda não tê-lo lido e fui às suas obras. Foi uma das melhores coisas que já fiz: descobri que aquele simpático e bonachão Professor havia produzido a obra mais original que um jurista do nosso tempo poderia conceber.

Seus lampejos de genialidade não conseguem aprisioná-lo a rótulos, embora ele dizia ser um "jurista baiano", porque, destarte ser argentino, era o único jurista no mundo que pensava o direito a partir dos paradigmas do candomblé e da ficção literária de Jorge Amado.

Para muitos, Warat era um "gozador", um "porra louca". Para mim, um pensador incomum que aliava profunda erudição com um verdadeiro turbilhão mental criativo, ousando navegar "mares nunca d'antes navegados" no direito e na filosofia. Era um sujeito que trazia ao direito debates impensados pela quase totalidade dos juristas com análises juspsicanalíticas, cognição da sensibilidade, relação do direito e da filosofia com a arte e a literatura, quase em uma "pedagogia jusfilosófica surrealista", como certamente diria o próprio. Não estava preso a amarras ideológicas, e quase como uma "metamorfose ambulante", conseguia agradar e desagradar a todos (direita, esquerda, centristas, liberais, conservadores - principalmente, comunistas, socialistas, social-democratas) com seu pensamento tão único e distinto com permanentes rupturas e retornos a ideias e autores.

Acima de qualquer coisa, incentivava seus discípulos a nunca segui-lo nem a ninguém. "Pensem por si próprios, ninguém é dono de seus pensamentos", foi sua mensagem.

A última feliz oportunidade de encontrá-lo foi no Simpósio realizado em 2008, em João Pessoa, em sua homenagem, quando ele recebeu o título de Doutor Honoris Causae, da Universidade Federal da Paraíba. Fui um dos palestrantes do evento com o tema "O Senso Comum Teórico dos Juristas e a Edificação de Culturas Constitucionais" (prometo aos leitores sistematizá-la e postá-la aqui). Warat ficou muito emocionado com a participação de tantos discípulos exclusivamente para debater suas ideias e pela última vez, sem o saber, pude ouvir as reflexões finais desse Salvador Dalí jurídico em seu inconfundível e carinhoso portunhol, de um brasileiro que nunca aprendeu a falar português e, segundo seus amigos portenhos, desaprendeu a falar espanhol (risos).

Sentirei muita falta dos "estilhaçamentos de utopias", "dos sonhos aposentados", "dessa raridade chamada amor". Como nós juristas nos acostumaremos sem o "direito surreal", sem a "ecologia do desejo", sem "as armas da ternura", sem os "dois maridos" da ciência jurídica?

Ultimamente estava discutindo um assunto que estou interessado em estudar: "saúde mental e direitos humanos". Uma de suas últimas conferências foi "racionalidad, locura y muerte" no IX Congreso de Salud Mental y Derechos Humanos, em Buenos Aires (http://luisalbertowarat.blogspot.com/2010/12/ecos-del-congreso.html). Infelizmente não pude ouvi-lo a respeito.

Por que nos aprontaste esta, querido Warat? Desta vez não teve graça.

Eras daqueles que, de tão grandioso, parecias imortal. Mais uma vez nos pregastes uma peça e com bom humor nos deixaste, uma vez mais, atônitos.

Que teu espírito, onde quer que esteja, possa colher os frutos de toda a sensibilidade e humanismo que plantaste nesse pequeno planeta que hoje já não te abriga.

Obrigado, Luis, tudo de bom pra ti. Saravá e buen viaje.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Em defesa do Parlamento

Já se foram há tempo meus 18, 19 anos, idades em que eu acreditava que poderia com minhas atitudes cidadãs mudar a situação das coisas.

A verdade é que hoje às vezes acho difícil mudar até minha própria vida, que dirá a vida da cidade, do país ou do mundo. Contudo, por pouco que seja, continuo acreditando que não podemos ser omissos. Ao menos aquilo que está ao nosso alcance devemos fazer. E foi com esse intuito que enviei via e-mail a carta abaixo aos parlamentares pernambucanos que aprovaram esse vergonhoso aumento de subsídios em causa própria. Com exceção do Dep. Raul Jungman (que, por sua vez, também não se beneficiará, já que deixará de ser parlamentar), os demais que estavam presentes votaram a favor. São eles: Ana Arraes, Bruno Rodrigues, Carlos Eduardo Cadoca, Eduardo da Fonte, Fernando Coelho Filho, Fernando Ferro, Gonzaga Patriota, José Mendonça Bezerra, Maurício Rands, Pedro Eugênio, Raul Henry e Wolney Queiroz. Os seus e-mails, para quem quiser perturbá-los (ou ao menos suas assessorias) e demonstrar indignação são:

dep.anaarraes@camara.gov.br

dep.brunorodrigues@camra.gov.br

dep.carloseduardocadoca@camara.gov.br

dep.eduardodafonte@camara.gov.br

dep.fernandocoelhofilho@camara.gov.br

dep.fernandoferro@camara.gov.br

dep.gonzagapatriota@camara.gov.br

dep.josemendoncabezerra@camara.gov.br

dep.mauriciorands@camara.gov.br

dep.pedroeugenio@camara.gov.br

dep.raulhenry@camara.gov.br

dep.wolneyqueiroz@camara.gov.br

Segue a carta:

"EM DEFESA DO PARLAMENTO

Prezado Maurício Rands e demais parlamentares federais de Pernambuco

Como seu eleitor desde 2002 (do Dep. Maurício Rands), cidadão brasileiro e pernambucano e Professor Adjunto de Direito Constitucional da Faculdade de Direito do Recife/UFPE, venho por meio deste, externar minha profunda indignação e decepção com a lamentável atitude dos senhores congressistas de aumentarem seus próprios subsídios em mais de dez mil reais, de forma fantasmagórica, sem qualquer debate com a população e com a sociedade civil organizada, e com uma raríssima convergência entre governistas e oposicionistas de caráter marcadamente corporativista no pior sentido possível.

O custo dos parlamentares brasileiros, segundo estudo da ONG Transparência Brasil, é o mais alto do mundo em termos proporcionais, ainda sem o aumento (http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI1719251-EI306,00.html). Mesmo em termos absolutos, o custo do Congresso Nacional brasileiro, dentre doze países pesquisados, somente perde para o Congresso dos EUA. Além de Brasil e EUA, foram pesquisados os custeios dos parlamentos da Alemanha, Argentina, Canadá, Chile, Espanha, França, Itália, México, Portugal e Reino Unido, ou seja, vários dos países estão entre os mais ricos do mundo.

Como Professor de Direito Constitucional, sempre defendi e defendo o Parlamento como a casa da democracia e do pluralismo social, instituição imprescindível à realização da Constituição e de seus desígnios, bem como o principal organismo de resistência a autoritarismos. Contudo, com a atitude que tomaram, os senhores demonstram uma completa insensibilidade quanto à população que representam e jogam a imagem do Congresso Nacional na lata do lixo. Não é à toa que o Parlamento é a instituição política mais desacreditada da República. A responsabilidade é principalmente, senão exclusivamente, dos senhores.

Como se não bastasse isso, o efeito cascata que isso provocará, com aumentos generalizados em praticamente todas as assembleias legislativas e câmaras de vereadores do Brasil, demonstra um grau elevado de irresponsabilidade política, econômica e social dos senhores para com o erário público. E os senhores têm consciência disso, o que é ainda mais grave.

Enquanto o Ministro da Fazenda estipula que haverá corte de gastos em programas sociais essenciais do governo (os atrasos das obras do PAC que o digam), enquanto se nega um aumento mais significativo do salário mínimo porque "quebraria a previdência", enquanto professores de universidades públicas com doutorado e dedicação exclusiva ganham menos que um motorista da Câmara dos Deputados, os senhores parecem fazer escárnio com a quase totalidade dos brasileiros, quase dobrando seus próprios subsídios, quando nenhuma categoria de trabalhadores do setor público ou privado teve aumento tão acima da inflação quanto a dos senhores.

Em defesa do Parlamento e contra a atitude autofágica dos senhores, tenho o dever de externar o meu profundo repúdio à vossa atitude.

Espero que isso nunca venha a acontecer, mas quando algum neofascista vier com a ideia de fechar o Congresso Nacional e ganhar amplo apoio da população para tal empreitada, lembrem-se que os senhores estão dando significativa contribuição nesse sentido, ao fazerem o Parlamento brasileiro descer ao subterrâneo da desmoralização.

Bruno Galindo - Professor Adjunto da Faculdade de Direito do Recife/UFPE; Doutor em Direito Público pela UFPE"

Já passa da hora de discutirmos aberta e objetivamente este e outros "custos Brasil".

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Krzysztof Kieslowski: sétima arte em estado bruto







Que bom voltar a falar de cinema depois de tanto tempo. E de cinema com "C" maiúsculo.

Certa vez, Alfred Hitchcock, cineasta que dispensa apresentações, afirmou que costumeiramente se irritava com filmes com excessos de diálogos. Para o mestre do suspense, cinema é sobretudo imagem e os diálogos deveriam se restringir ao estritamente necessário.

Sou um mero cinéfilo, mas não iria ao extremo de Hitchcock. Acho, p. ex., Woody Allen um excepcional cineasta e seus filmes são exacerbadamente dialógicos. Contudo, reconheço que o diálogo excessivo pode ser uma forma de esconder a pouca habilidade na elaboração das imagens que, de fato, deve ser o principal foco na produção de um bom filme.

Bom, se Hitchcock estiver certo, poucos cineastas são tão hitchcockianos, nesse sentido específico, quanto o diretor polonês Krzysztof Kieslowski.

Kieslowski veio da Escola dramatúrgica de Lodz, a mesma de outros dois célebres cineastas da Polônia, Andrzej Wajda ("Katyn" e "Danton") e Roman Polanski ("O Pianista" e "Lua de Fel"). Começou sua carreira como documentarista e diretor de curtas. Com problemas com a censura dos tempos da Polônia comunista, começou a se aproximar da escola francesa (a partir de "A Dupla Vida de Veronique"), não sem antes produzir uma série de filmes para a TV polonesa, intitulada "Decálogo": dez filmes de cerca de uma hora cada, abordando cada um dos dez mandamentos bíblicos. Foi aí que seu estilo ficou definitivamente ligado à ideia de poucos diálogos e muita ênfase nas imagens e cores, no que alguns intitularam de "poesia imagética".

Recentemente, assisti novamente a sua "Trilogia das Cores". Esse magnífico "3 em 1" cinematográfico consiste em três longas, cada um deles abordando uma das cores da bandeira francesa e um dos lemas da Revolução de 1789: "A Liberdade é Azul", "A Igualdade é Branca" e "A Fraternidade é Vermelha". Produzidos entre 1993 e 1994, os três filmes são independentes e, paradoxalmente, interdependentes entre si. Em meio ao início da vigência do Tratado de Maastricht e da visão otimista de uma Europa unida nos anos 90, Kieslowski aborda essas questões, não com filmes grandiloquentes e épicos, mas com estórias do cotidiano, de gente comum, com suas virtudes e defeitos concretos, cheias de ambiguidades e distantes de heroísmos ou perversão exasperada. E as imagens, como Kieslowski as constrói, são o ponto forte de toda a Trilogia.

A LIBERDADE É AZUL (Trois Couleurs: Bleu)

É o primeiro filme da Trilogia e o que eu gosto menos, confesso. Mas, como diz meu amigo Alexandre da Maia, um filme "ruim" (que não é o caso) de diretores como Kieslowski é melhor do que 95% das produções lançadas no mercado cinematográfico. Se você não viu, não deixe de começar por ele, é imprescindível.

A estória se passa na França, às vésperas da celebração do Tratado de Maastricht (União Europeia) e do consequente estreitamento dos laços intereuropeus. Começa com uma incomensurável tragédia familiar: Julie (Juliette Binoche) perde o marido, famoso compositor de música clássica, e a filha de 5 anos em um acidente de carro. Ela sobrevive, mas se sente aprisionada ao passado e à tragédia. Para se libertar, busca se livrar de tudo o que a remete ao passado, de objetos pessoais até posses e heranças. Mas o passado está lá, nas lembranças, na música do marido (que compusera um concerto para Maastricht, não concluído até sua morte) e até mesmo em outro músico (Benoit Régent), amigo do marido, que termina por se tornar o novo companheiro de Julie.

O estilo de Kieslowski está claramente delineado já na primeira cena. Não há diálogos até o momento do acidente, somente imagens mostrando desde o vazamento no carro, provavelmente do óleo de freio, ao susto que acomete o jovem que estava próximo ao local do ocorrido. A presença da música praticamente idêntica ao concerto do marido tocada por um flautista de rua, o lustre azul no novo apartamento de Julie, lembrança de um passado que insiste em persegui-la, até mesmo a descoberta de uma advogada que era amante de seu marido, cenas recheadas de acasos e coincidências bem kieslowskianas.

E a liberdade, tema central, no caso libertação do passado, das lembranças, das situações indesejáveis, está na tela em antagonismo ao amor. É como se para amar, ela precisasse renunciar à sua própria liberdade.

O filme é um tanto melancólico, por vezes sombrio, mas não vale a pena ver os demais sem antes assisti-lo. Destaque para a fotografia do filme: as cenas produzidas em tons propositadamente azulados, remetendo à primeira cor da bandeira francesa, não deixa de ser um sensacional jogo de imagens.

A IGUALDADE É BRANCA (Trois Couleurs: Blanc)

Normalmente as trilogias cinematográficas e os filmes sequenciados pioram a cada número. O que ocorre na maioria dos casos é que o primeiro, que seria inicialmente o único, faz sucesso e os produtores, ávidos por lucro fácil e garantido, resolvem fazer o 2, 3, 4 e o que mais puderem (vide o caso da trilogia Matrix, com um excelente primeiro filme e dois filmes posteriores sofríveis).

Em cineastas como Kieslowski essa regra é quebrada. No caso da "Trilogia das Cores", a sequência é invertida: o filme posterior é melhor que o anterior. E é o que ocorre com "A Igualdade é Branca".

A estória se passa entre a França e a Polônia. Karol (Zbigniew Zamachowski), polonês, é casado com Dominique (Julie Delpy), francesa. Moram em Paris e estão em processo de divórcio, pois Karol está sexualmente impotente e Dominique se irrita com isso. Ela fica com tudo o que possuíam e o deixa em situação de mendicância na capital francesa. Após encontrar um compatriota na estação do metrô, este o convence a voltar a Varsóvia de um modo inusual. Chegando na capital polonesa, após curiosas reviravoltas um tanto tragicômicas, Karol consegue enriquecer na Polônia pós-comunista. Apesar de ainda apaixonado por Dominique, Karol planeja uma inusitada vingança contra a ex-esposa.

Sem perder a essência, aqui Kieslowski joga com uma narrativa um tanto diversa da do primeiro filme. A coincidência de Julie no tribunal onde Karol e Dominique discutem o divórcio nos transporta ao universo casualista do diretor. A cena inicial da mala na esteira rolante do aeroporto, incompreensível naquele momento, faz uma conexão com o desdobramento do filme. O encontro fortuito dos dois poloneses no metrô através da música que Karol "tocava" com o pente enquanto pedia esmolas e o jogo com a moeda de dois francos que parece não querer abandonar são outras cenas que chamam bastante a atenção na narrativa "imagética".

A igualdade como tema central já aparece como problema no próprio tribunal onde Dominique parece ter a preponderância na preferência do juiz, a princípio pela questão nacional, já que estava litigando contra um polonês. Karol, por sua vez, se queixa da discriminação sofrida, o que não deixa de ser um contraste entre uma utopia da Europa unida e a desigualdade fática nas relações do cotidiano europeu.

Mais uma vez, a fotografia remete à cor em questão: os tons brancos, com especial destaque para a cena dos dois poloneses "brincando" na neve em Varsóvia, diz muito do que Kieslowski busca com esse segundo filme da Trilogia.

A FRATERNIDADE É VERMELHA (Trois Couleurs: Rouge)

Em minha opinião, é o melhor filme da Trilogia e a fecha com chave de ouro.

Dessa vez, a estória se passa em Genebra, na Suíça. Valentine (Irène Jacob) é uma jovem modelo suíça que trabalha nas passarelas e em comerciais, tendo um cotidiano bem movimentado. Acidentalmente atropela uma cadela e, preocupada, vai em busca do seu dono. Ao encontrá-lo, começa, por mais uma das típicas casualidades kieslowskianas, a desenvolver com ele uma relação ambígua, de certo "amor e ódio", sem chegar a extremos, contudo. O homem é um juiz aposentado, interpretado por Jean-Louis Trintignant, que, solitário e amargurado, passa os dias a realizar escutas telefônicas das chamadas de seus vizinhos. Ao descobrir isso, Valentine, que é dessas pessoas bastante éticas e "certinhas", acha repugnante o comportamento do mesmo e pensa em denunciá-lo aos vizinhos. Chega a casa de um deles, mas ao descobrir a relação familiar existente (em verdade, era um homem que vivia um caso homossexual, embora fosse casado e pai de uma filha), fica amendrontada com a perspectiva de prejudicar tal família e desiste. Entretanto, o próprio juiz termina se denunciando aos vizinhos, pois passa a ter certo drama de consciência após as recriminações de Valentine.

Em paralelo, corre a estória de um vizinho da modelo. Auguste (Jean-Pierre Loirit), ainda jovem advogado, estuda para se tornar juiz e termina por alcançar seu objetivo. No filme, funciona como uma espécie de alter ego do velho juiz bisbilhoteiro, na medida em que as histórias pessoais de ambos se repetem em boa medida, principalmente no contexto da profissão e do relacionamento amoroso, uma chave para a explicação da amargura pessoal demonstrada pelo magistrado aposentado.

As histórias de Valentine e Auguste se encontrarão em uma tragédia, o naufrágio do navio em que viajavam pelo Canal da Mancha em mais uma casualidade kieslowskiana que, brilhantemente reúne os principais personagens de toda a Trilogia como sobreviventes da tragédia naval, em um inusitado e improvável desfecho.

A incompreensão mútua é muito explorada no filme e somente a fraternidade entre as pessoas parece ser capaz de redimi-las, criando novas possibilidades de recomeços em cima dos destroços das fatalidades humanas. Isso é especialmente relevante na última meia hora da película, sem que se deixe desapercebido a variedade de nacionalidades (francesa, polonesa, suíça, inglesa) dos sobreviventes do naufrágio, talvez uma alusão à Europa reerguida da devastação em sua rica e, quem sabe, fraterna diversidade.

Chamam-me a atenção em especial duas cenas: a inicial, do itinerário da comunicação telefônica (coisa de cineasta do impensável) e a coincidência (mais uma) da foto do comercial de Valentine com a imagem televisiva paralisada em sua feição na TV após o resgate do naufrágio. Destaque, mais uma vez, para a fotografia em tons propositadamente avermelhados, bem como para o talento de Irène Jacob, excelente atriz suíça revelada por Kieslowski em "A Dupla Vida de Veronique" e que em "A Fraternidade é Vermelha", como se não bastasse a competência, está no auge de sua singela e cândida beleza, um verdadeiro colírio para os apreciadores da beleza feminina, entre os quais eu me incluo.

Após a Trilogia, Kieslowski disse que se aposentara, mas estava trabalhando em um roteiro baseado na "Divina Comédia" de Dante Alighieri, também pensada como trilogia (inferno, purgatório e paraíso). Infelizmente, em 1996, a morte levou o velho Krzysztof, sem que pudéssemos desfrutar de mais uma obra-prima sua.

Fica a "Trilogia das Cores" e em especial "A Fraternidade é Vermelha" como o mais maravilhoso e redentor gran finale de um cineasta de brilhantismo invulgar.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Entre metrópoles, espaços vazios e mapas mentais




Texto de Zygmunt Bauman sobre a percepção dos espaços nas grandes metrópoles (e olhe que ele fala da Europa). Vale a reflexão.

"Numa de minhas viagens de conferências (a uma cidade populosa, grande e viva do sul da Europa), fui recebido no aeroporto por uma jovem professora, filha de um casal de profissionais ricos e de alta escolaridade. Ela se desculpou porque a ida para o hotel não seria fácil, e tomaria muito tempo, pois não havia como evitar as movimentadas avenidas para o centro da cidade, constantemente engarrafadas pelo tráfego pesado. De fato, levamos quase duas horas para chegar ao lugar. Minha guia ofereceu-se para conduzir-me ao aeroporto no dia da partida. Sabendo quão cansativo era dirigir na cidade, agradeci sua gentileza e boa vontade, mas disse que tomaria um táxi. O que fiz. Dessa vez, a ida ao aeroporto tomou menos de dez minutos. Mas o motorista foi por fileiras de barracos pobres, decadentes e esquecidos, cheios de pessoas rudes e evidentemente desocupadas e crianças sujas vestindo farrapos. A ênfase de minha guia em que não havia como evitar o tráfego do centro da cidade não era mentira. Era sincera e adequada a seu mapa mental da cidade em que tinha nascido e onde sempre vivera. Esse mapa não registrava as ruas dos feios "distritos perigosos" pelas quais o táxi me levou. No mapa mental de minha guia, no lugar em que essas ruas deveriam ter sido projetadas havia, pura e simplesmente, um espaço vazio.

A cidade, como outras cidades, tem muitos habitantes, cada um com um mapa da cidade em sua cabeça. Cada mapa tem seus espaços vazios, ainda que em mapas diferentes eles se localizem em lugares diferentes. Os mapas que orientam os movimentos das várias categorias de habitantes não se superpõem, mas, para que qualquer mapa "faça sentido", algumas áreas da cidade devem permanecer sem sentido. Excluir tais lugares permite que o resto brilhe e se encha de significado.

O vazio do lugar está no olho de quem vê e nas pernas ou rodas de quem anda. Vazios são so lugares em que não se entra e onde se sentiria perdido e vulnerável, surpreendido e um tanto atemorizado pela presença de humanos."

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Segundo turno: razões de meu voto


Confesso, prezados amigos leitores, que desde 1989 (eu só tinha 15 anos, mas lembro bem daquela campanha) eu não via uma campanha presidencial tão farsesca e bizarra como esta de 2010.

Parece o fim dos tempos. Agora o grande debate nacional é para se saber se algo mais atingiu José Serra, além da bolinha de papel vista no vídeo. O guia do candidato tucano ainda ficou explorando isso, tentando criar um factoide dos mais bizarros que já vi. É claro que isso gerou reação da candidata petista e de sua campanha, acusando Serra de montar uma farsa. Pode até não ser, mas a simples exploração eleitoral disso permite esse tipo de especulação, principalmente em uma campanha acirrada como esta.

Sinceramente, qual é o real interesse que nós cidadãos brasileiros temos na bolinha de papel ou na fita crepe ou no que quer que seja que eventualmente tenha atingido o candidato do PSDB? Qual é a relevância disso para analisarmos o que poderão ser os próximos 4 anos de governo no Brasil? Absolutamente nenhuma.

Já havia decidido votar (um tanto a contragosto, confesso) em Dilma Roussef, de modo que esse episódio, independentemente dos seus esclarecimentos, não tem qualquer importância nessa decisão pessoal (e, quero crer, na da maioria dos brasileiros).

Apesar de não simpatizar muito com sua candidatura, votarei nela por duas razões: uma de natureza pessoal-profissional e outra de natureza político-analítica.

Do ponto de vista pessoal e profissional, todos sabem que sou Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco no curso de Direito. Como aluno dos cursos de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) e hoje docente da Casa, pude ver de perto a extrema diferença entre os anos FHC e os anos Lula para as Federais e o ensino superior público.

Até 2002, nos anos tucanos, as Federais estavam caindo aos pedaços, completamente sucateadas, com muitas aposentadorias de Professores (por medo das reformas da Previdência) sem reposição dos quadros (a título de exemplo, quase metade dos Professores no Curso de Direito entre 1998 e 2000 eram substitutos temporários, inclusive este que escreve essas linhas). Instalações precaríssimas, manutenção inexistente (a ponto de tetos terem caído na Faculdade de Direito), enfim, um horror generalizado. Em termos mais amplos: 8 anos de arrocho salarial para Professores e servidores, orçamento cada vez mais reduzido para ensino e pesquisa, cortes de bolsas de produção científica, o que direcionava o ensino público para o caminho da privatização. Nenhuma nova universidade pública criada. Interiorização? Impensável!

Nos anos Lula: vários novos concursos para provimento dos cargos vagos (inclusive o meu concurso da UFPE, que é de 2006, afora os outros dois em que fui aprovado e exerci o cargo de Professor, quais sejam, na UFRN, em 2004, e na UFPB, em 2005), melhorias das instalações, mais verbas para pesquisa e bolsas de produção científica, interiorização das Federais (neste ponto, a UFPE foi destaque, aliás). Os salários dos docentes, embora comparativamente ainda muito baixos, melhoraram significativamente e hoje temos um plano decente de cargos, carreira e salários, oriundo do acordo PROIFES/Governo Federal, bastante discutido e negociado. Mais servidores foram contratados e 14, isso mesmo, quatorze novas universidades federais foram criadas em 8 anos.

A extrema ironia de tudo isso é que FHC é Professor aposentado e um dos grandes nomes da Universidade Pública brasileira, ao passo que Lula jamais frequentou suas salas de aula e nem sequer possui um diploma universitário. É quase inacreditável que o último Presidente tenha sido tão melhor para a universidade pública do que o primeiro.

Em relação à análise política mais geral, é o Governo Lula e seus êxitos que me motivam a votar em Dilma Roussef. Não faz muito sentido alguém que aprove em linhas gerais os mandatos de Lula vote agora em José Serra. Até acredito que, diante das atuais circunstâncias, o governo dele não seria igual ao de FHC, mas só a perspectiva daquela mesma mentalidade retornar ao poder (lembremos que ninguém governa sozinho), já me faz ser antipático ao candidato tucano.

Ademais, por mais que os críticos do Governo, os honestos e os desonestos, se esforcem para minimizar seus feitos e maximizar seus erros, o fato é que nos números, comparativamente falando, os 8 anos de Governo Lula dão um banho nos 8 anos de Governo FHC (tanto que os tucanos se esquivam completamente desse debate). Diminuição da miséria, geração de empregos, crescimento do PIB, redução do desmatamento, balança comercial, salário mínimo e seu poder de compra, dívidas externa e interna, crescimento industrial, controle da inflação: em todos esses importantes itens, o governo petista é superior.

Isso para não falar de outros âmbitos, como as relações exteriores e o respeito ao funcionamento das instituições republicanas. Em que pese minhas críticas a algumas ações governamentais específicas nessas áreas, é notável como a diplomacia brasileira é atualmente mais altiva e soberana, sem perder sua capacidade de diálogo e fomentar permanentemente o mesmo. Um Ministro das Relações Exteriores brasileiro tirar o sapato para ser revistado em aeroporto estrangeiro é uma imagem impensável nos dias de hoje, mas ficou como a emblemática imagem da diplomacia daqueles anos, na figura do então Chanceler Celso Lafer.

Nas instituições como o Ministério Público Federal, a Polícia Federal e o próprio Supremo Tribunal Federal, as escolhas presidenciais foram mais republicanas: hoje Procuradores Gerais da República processam partidários do Presidente, Ministros escolhidos por Lula decidem contra os interesses do Governo e a Polícia Federal investiga governistas e oposicionistas de modo aparentemente não seletivo. Não há mais os "engavetadores-gerais" nem o uso da PF para abortar candidaturas de adversários do governo. O "líder do governo no Supremo" também é uma figura não mais presente, os Ministros hoje podem realmente discutir como magistrados. A Controladoria Geral da União, no âmbito do executivo, é um dos órgãos mais atuantes contra desmandos internos.

Apesar de achar que o PT terminou por reproduzir muitas das velhas práticas clientelistas e fisiologistas que anteriormente criticara, bem como avançou muito pouco no campo da ética política, ainda acredito que sopesando na balança e diante das evidências, o peso maior pende mesmo para Dilma. Neste segundo turno, só acredito nela como continuidade do Governo Lula, Serra é o candidato oposicionista, goste-se ou não disso.

P.s.: a declaração pública de meu voto não me fará menos crítico a um eventual Governo Dilma. Como os leitores podem verificar, em vários posts anteriores, critiquei Lula e o Governo quando achei que mereciam. Como sou um intelectual profissional e não um político, tenho total liberdade para exprimir o que penso sem qualquer temor de desagradar A, B ou C. Essa é uma das coisas realmente boas que a profissão me permite (ao menos por ora, já que vivemos em uma democracia, por mais problemática que ela possa ser).

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Por que voto em Marina Silva - parte II


Lendo o fabuloso livro "A Arte da Vida", do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (Professor emérito das Universidades de Varsóvia e Leeds/Inglaterra e, na minha opinião, um dos maiores pensadores contemporâneos vivos), me deparei com essa magnífica reflexão que reforça ainda mais minha escolha eleitoral (embora não tenha a ver, ao menos em princípio, com a conjuntura especificamente brasileira):

"Sendo o preço de mercado por eles exigido o único denominador comum entre os variados produtos do trabalho corporal e mental humano, as estatísticas do "produto nacional bruto" destinadas a avaliar o crescimento ou declínio da disponibilidade dos produtos registram a quantidade de dinheiro que mudou de mãos no curso das transações de compra e venda. Quer os índices do PNB cumpram ou não sua tarefa pública, resta ainda saber se devem ser tratados, como tendem a ser, como indicadores do crescimento ou declínio da felicidade. Presume-se que o aumento do dispêndio de dinheiro deva coincidir com um movimento ascendente similar da felicidade daqueles que o gastam, mas isso não é imediatamente óbvio. Se, por exemplo, a busca da felicidade como tal, reconhecida como atividade absorvente, consumidora de energia, enervante e repleta de riscos, provoca maior incidência de depressão psicológica, provavelmente mais dinheiro será gasto com antidepressivos. Se, graças a um aumento do número de proprietários de automóveis, a frequência de acidentes de carros e o número de suas vítimas crescem, assim também as despesas com consertos de veículos e tratamento médico. Se a qualidade da água potável continuar se deteriorando, mais e mais dinheiro será gasto comprando-se garrafas de água mineral a serem carregadas em nossas mochilas ou malas em toda viagem, longa ou curta (vão nos pedir para esvaziar o conteúdo da garrafa ali mesmo quando chegarmos a este lado do controle de segurança do aeroporto, e precisaremos comprar outra garrafa do lado de lá). Em todos esses casos, e numa multiplicidade de situações similares, mais dinheiro troca de mãos, aumentando os números do PNB. Isso é certo. Mas bem menos óbvio é um crescimento paralelo da felicidade dos consumidores de antidepressivos, vítimas de acidentes de automóveis, portadores de garrafas de água - e, de fato, de tantas pessoas que se preocupam com a má sorte e temem que sua vez de sofrer esteja chegando. Nada disso deveria realmente ser novidade. Como Jean-Claude Michéa relembrou recentemente em seu texto, oportunamente revisto, sobre a conturbada história do "projeto moderno", ainda em 18 de março de 1968, no auge da campanha presidencial, Robert Kennedy lançou um ataque mordaz à mentira em que se baseia a avaliação da felicidade com base no PNB:

'Nosso PNB considera em seus cálculos a poluição do ar, a publicidade do fumo e as ambulâncias que rodam para coletar os feridos em nossas rodovias. Ele registra os custos dos sistemas de segurança que instalamos para proteger nossos lares e as prisões em que trancafiamos os que conseguem burlá-los. Ele leva em conta a destruição de nossas florestas de sequoias e sua substituição por uma urbanização descontrolada e caótica. Ele inclui a produção de napalm, armas nucleares e dos veículos armados usados pela polícia para reprimir a desordem urbana. Ele registra... programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos a crianças. Por outro lado, o PNB não observa a saúde de nossos filhos, a qualidade de nossa educação ou a alegria de nossos jogos. Não mede a beleza de nossa poesia e a solidez de nossos matrimônios. Não se preocupa em avaliar a qualidade de nossos debates políticos e a integridade de nossos representantes. Não considera nossa coragem, sabedoria e cultura. Nada diz sobre nossa compaixão e dedicação a nosso país. Em resumo, o PNB mede tudo, menos o que faz a vida valer a pena.'

Robert Kennedy foi morto poucas semanas depois de publicar essa inflamada acusação e declarar sua intenção de restaurar a importância das coisas que fazem a vida valer a pena - de modo que jamais saberemos se ele teria tentado transformar suas palavras em realidade caso fosse eleito presidente dos Estados Unidos, muito menos se teria obtido sucesso nisso. O que sabemos, porém, é que nos 40 anos que desde então se passaram houve poucos sinais, se é que houve algum, de que sua mensagem tenha sido ouvida, compreendida, aceita e lembrada - muito menos algum movimento da parte dos representantes que elegemos para renegar e repudiar a pretensão dos mercados de bens ao papel de estrada real para uma vida significativa e feliz, nem evidências de alguma inclinação de nossa parte para remodelarmos nossas estratégias de vida."

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Por que voto em Marina Silva


No post anterior, declarei o meu voto em Marina Silva. Gostaria de justificá-lo no atual.

Marina Silva é a candidatura que entendo como mais autenticamente novidadeira no contexto atual. E uma novidade para melhor.

Sua vida é uma história de luta e sofrimento, mas ao mesmo tempo de vitórias pessoais e superação. É uma autêntica sobrevivente. Oriunda de família muito pobre do interior acreano, resistiu na infância, apesar da precariedade do sistema de saúde de onde morava, a várias doenças como leishmaniose e malária (5 vezes diagnosticada). Alfabetizada somente aos 16 anos, foi empregada doméstica em Rio Branco para se sustentar e garantir seus estudos. Estudava as lições durante as madrugadas e com isso, mesmo tardiamente alfabetizada, aos 26 anos já se formava em História, fazendo depois pós-graduação em Psicopedagogia.

Envolveu-se também, desde cedo, na luta política pela preservação da Floresta Amazônica e da qualidade de vida de seus habitantes e trabalhadores, tendo sido, juntamente com o líder seringueiro Chico Mendes, pioneira na implementação das ações da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e na fundação do PT acreano. Em uma resistência política pacifista a la Mahatma Gandhi, de desobediência civil e enfrentamento com os poderosos da região, esteve na linha de frente dessa luta em que tombaram o próprio Chico Mendes e muitos outros.

Pelo reconhecimento desta luta, o povo do Acre a elegeu vereadora, deputada e senadora. Foi Ministra do Meio Ambiente do Governo Lula durante todo o primeiro mandato e a maior parte do segundo. Enfrentou mais uma vez grupos poderosos dentro e fora do governo para fazer valer suas convicções de defesa do meio ambiente e da qualidade de vida. Saiu por vontade própria, por divergências internas com vários membros do governo, deixando, entretanto, plantadas sementes que começam gradativamente a brotar.

Marina Silva é uma líder de respeitabilidade mundial. Convicta de seus ideais, luta com veemência por eles sem, no entanto, cair em extremismos raivosos e inconsequentes, como PSTU, PCO e assemelhados. De incontestável honradez e integridade pessoal, mesmo os seus mais ferrenhos críticos não fazem qualquer questionamento ético a seu respeito. Nem por isso, contudo, Marina Silva posa de vestal da moralidade e dos bons costumes.

Demonstra lucidez e disposição para dialogar com os diferentes segmentos da sociedade. Evangélica ligada à Assembleia de Deus, não faz proselitismo de sua fé, a ponto de ser criticada por líderes religiosos sectários como o Pastor Silas Malafaia, que afirma que Marina não é suficientemente "cristã e evangélica".

Demonstra igual disposição para o diálogo com os diversos segmentos políticos brasileiros. Admite progressos nos governos FHC e Lula a ponto de afirmar que deseja em um eventual governo contar com as "boas cabeças" do PT e do PSDB.

Sua ênfase consistente no meio ambiente, na qualidade de vida e no desenvolvimento sustentável, com conhecimento de causa e distante de devaneios, também me atrai bastante. Isso é a agenda de agora e do futuro e influencia todos os demais temas sociais, da saúde à educação, da habitação ao saneamento, da poluição ao stress cotidiano das grandes metrópoles brasileiras.

Por tais razões, mesmo aprovando o Governo Lula e avaliando-o como significativamente melhor do que o Governo FHC, não votarei em sua candidata, a não ser na hipótese de um eventual segundo turno entre ela e José Serra.

Em uma eleição em 2 turnos, no primeiro é a hora de votar no melhor candidato, sendo o voto no segundo turno dado ao "menos ruim" (obviamente o melhor e o "menos ruim" podem coincidir). Por isso, independentemente de suas chances concretas de chegar ao segundo turno ou de ganhar as eleições, voto em Marina Silva por considerá-la a melhor candidata dentre as candidaturas em disputa.

Para ser bem sincero, acho improvável sua vitória eleitoral ou mesmo que ela chegue ao segundo turno, embora torça para estar errado. Mas isso não mudará meu voto e certamente terei orgulho de dizer aos meus filhos no futuro que dei um voto àquela grande líder política e ambientalista. E registro isso publicamente neste post para quem quiser ler antes ou depois das eleições.

Marina Silva Presidente do Brasil!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Em busca do escândalo perfeito


Antes que os serristas, peessedebistas, antilulistas e congêneres venham me acusar de estar fazendo campanha para a candidata petista Dilma Roussef, vou logo avisando: votarei em Marina Silva para Presidente da República. Apesar de ter gostado do Governo Lula, vejo a candidatura Dilma como uma fabricação lulista, subsistindo basicamente em razão da enorme popularidade de seu patrono político. Não que ela não possa ser uma boa governante, mas Marina Silva possui, em minha opinião, muito mais credencial para tal, tendo em sua belíssima trajetória política muito mais identificação com Lula do que a ex-Ministra da Casa Civil.

Esclarecido isto, não posso, entretanto, deixar de demonstrar profunda indignação com o lamentável comportamento da grande imprensa brasileira na atual campanha presidencial, principalmente nessa reta final. O unilateralismo e o partidarismo praticamente explícito da Rede Globo, Revista Veja, Estadão e Folha de São Paulo em prol da candidatura José Serra deixa comprometida qualquer notícia veiculada a respeito por esses meios de comunicação.

Sempre duvidei dessas teorias da conspiração das quais certos simpatizantes do PT falam, da suposta existência de um PIG (Partido da Imprensa Golpista) querendo a todo momento detonar o Governo Lula e seus colaboradores, envolvendo-os em um escândalo após outro. Contudo, os recentes acontecimentos, se não autorizam a tese, ao menos a faz bastante verossímil.

Inicialmente, lembro das entrevistas dos principais candidatos dadas ao Jornal Nacional, quando a situação ainda era de empate técnico entre Dilma e Serra na pesquisas eleitorais. Enquanto Willliam Bonner foi ríspido e contundente com Dilma Roussef e Marina Silva, chegando mesmo a ser grosseiro e mal educado em alguns momentos, foi um verdadeiro gentleman com José Serra.

Depois surgiu o Receitagate. A violação do sigilo fiscal de Verônica Serra, filha do candidato do PSDB, assim como de outros tucanos, é de fato algo grave em um Estado democrático de direito que tem obrigação de proteger tais dados. É óbvio que merece apuração. Porém, o destaque midiático dado ao fato como se fosse um dos maiores escândalos da história do Brasil é de uma desproporção enorme. Igualmente desproporcional é as tais acusações a filiados obscuros do PT darem ensejo ao manejo judicial da impugnação da candidatura de Dilma Roussef no Tribunal Superior Eleitoral, sem que haja qualquer prova de ligação da candidata ou de sua campanha com isso. Embora neguem, parece uma estratégia desesperada de vencer de qualquer jeito, "no tapetão", como se diz.

É curioso que Revista Veja, Rede Globo e asseclas que dedicaram tantas páginas e dezenas de minutos televisivos destacando tal violação, não divulgaram absolutamente nada acerca da reportagem publicada na edição 613 da Revista Carta Capital, que alega, segundo o jornalista Leandro Fortes (http://www.cartacapital.com.br/politica/sinais-trocados), a existência de uma gigantesca quebra de sigilo bancário, perpetrada pela empresa da mesma Verônica Serra, em sociedade com a irmã do banqueiro Daniel Dantas, a partir de acesso privilegiado a dados do Banco Central nos últimos tempos do Governo Fernando Henrique Cardoso. É claro que a acusação pode ser falsa e se sabe que a Carta Capital é uma revista de tendência governista, mas porque somente os escândalos de um dos lados da disputa merecem investigação e apuração?

Veja, Globo e congêneres parecem mesmo atuar como ostensivos partidos de oposição, lembrando nesse caso o ex-Ministro tucano Rubens Ricúpero na longíqua campanha de 1994 (quem lembra do "eu não tenho escrúpulos, o que é bom eu mostro, o que é ruim eu escondo!"?).

Como o Receitagate não funcionou para frear o crescimento da candidata governista, vasculharam as ações da ex-assessora e agora ex-Ministra Erenice Guerra até descobrirem supostas ligações escusas entre familiares da mesma e a prática de tráfico de influência. Mais uma vez são acusações graves, merecem apuração, mas é óbvio que nenhum juiz ou tribunal condenará quem quer que seja em poucas semanas. Mais uma vez, parece que o que querem os grandes conglomerados de comunicação é que o "escândalo da vez" atinja a candidatura Dilma, pouco importando se Erenice Guerra é de fato culpada: a condenação midiática já está antecipada e selada sem qualquer direito à defesa.

Ontem ouvi mais um na CBN: a NBR, tv estatal, filmou discursos do Presidente Lula em comícios, alegadamente para registrá-los em seus arquivos históricos. Pode até não ser por essa razão, mas filmar discursos do Presidente agora é um crime para abalar a república? Vão pedir o impeachment de Lula e a impugnação da candidatura Dilma por isso?

Apesar de não votar em Dilma Roussef, vejo nesses escândalos até agora apenas e tão somente a criação de grandes factoides para tentar derrubar os atuais governistas de qualquer jeito. É lamentável que um sujeito como José Serra, com uma biografia política tão respeitável, entre em um jogo tão desesperado, quase um vale-tudo para vencer a disputa presidencial. Ao contrário de Marina Silva, que certamente sairá da disputa maior do que entrou, assim como do próprio Lula, que perdeu 3 eleições consecutivas, mas jamais apelou para tais expedientes, saindo sempre maior a cada derrota, Serra arrisca-se seriamente a sair menor do que entrou, caso realmente não vença o pleito, como por ora apontam as pesquisas de intenção de voto. É uma pena.

Em tempo: já decidi meu voto para Presidente da República (Marina Silva) e um dos Senadores (Humberto Costa). Quanto aos demais, ainda estou refletindo, embora já saiba em quem não votarei.

Um réquiem para o falecido futebol pernambucano



"Aqui jaz o finado Santa Cruz Futebol Clube..."

"O Clube Náutico Capibaribe agoniza em seus últimos momentos, já tendo recebido a extrema-unção..."

Se estivéssemos nos tempos de Mozart e Pernambuco fosse a Áustria, caberia bem encomendar ao genial compositor uma missa de réquiem para o futebol local e, por conseguinte, do seu Campeonato estadual, outrora competitivo e emocionante, mas hoje reduzido a um monótono monopólio absoluto de um único clube.

Os leitores deste espaço sabem que torço para o Náutico e, portanto, meu comentário está longe da imparcialidade. Contudo, sou antes de tudo um apreciador do bom futebol e das emoções que este provoca, e admiro os campeonatos nos quais existe competitividade e sempre há dois ou mais clubes lutando com reais chances de conquista do título. Em verdade, só se pode falar em competição se presentes tais condições.

Até a década de 80 do século passado, Náutico, Santa Cruz e Sport eram considerados os 3 grandes clubes de Pernambuco. A disputa era acirrada e não raro ocorriam emocionantes surpresas. Mesmo quando o time de um deles era nitidamente mais fraco, por vezes se agigantava nos momentos decisivos e até conquistava o título. Em minha infância e adolescência eu ainda tive oportunidade de testemunhar isso.

Também a nível nacional, os 3 aprontavam contra os ditos "Grandes" do Brasil. Lembro de memoráveis vitórias deles contra Flamengo, Corínthians, Palmeiras, Vasco e outros "queridinhos" da mídia sudestina.

Agora isso é passado. A prematura desclassificação do outrora grande Santa Cruz da 4a. divisão nacional, derrotado pelo modestíssimo Guarani de Sobral, mesmo após colocar 50 mil pessoas no Estádio do Arruda, só comprova a tese de que há muito a real competitividade no futebol pernambucano é inexistente.

Em minha modesta opinião, o fator decisivo para isso foi o ingresso do Sport no famigerado "Clube dos 13" (União dos Grandes Clubes Brasileiros), entidade exclusivista e oligopolista do futebol brasileiro, no ano de 1997. Construindo uma eficiente estratégia de marketing em cima do título brasileiro de 1987, conquistado em definitivo fora de campo, nos tribunais da Justiça Comum, somente 7 anos depois, o fato é que o Sport foi muitíssimo competente em utilizar esse famoso factoide como cavalo de batalha para se impor politicamente no cenário clubístico nacional. Aliado a isso, teve seguidas boas administrações, o que fez com que conquistasse boas colocações no Brasileirão dos anos seguintes e em 1997 entrasse para o referido C13, antes tão criticado pelos próprios rubronegros.

Isso significou e continua significando um gigantesco aporte de recursos financeiros exclusivamente direcionados ao Sport em Pernambuco, o que criou uma igualmente gigantesca disparidade econômica com Náutico e Santa Cruz que, a partir daí, dificilmente conseguem montar times com reais condições de superar ou mesmo fazer frente aos constituídos pelo Clube da Ilha do Retiro.

É bem verdade que, aliado a isso, Náutico e Santa Cruz (principalmente este) tiveram talvez as piores administrações de suas histórias. Se, sendo curto o dinheiro, ainda este é administrado de forma equivocada, os clubes ficam esfacelados. Mas por si só isso não seria suficiente, até porque o Sport também passou por más administrações, embora menos frequentemente que os rivais.

Para verificar o papel do C13 nesses acontecimentos, basta observarmos os dados históricos do Campeonato Pernambucano antes e depois da entrada do Sport no C13 quanto ao número de títulos de cada clube:

1915 a 1996 (antes do C13)

Sport - 29

Santa Cruz - 23

Náutico - 18

1997 a 2010 (depois do C13)

Sport - 39

Santa Cruz - 24

Náutico - 21

Ou seja, em 14 campeonatos estaduais, o Sport conquistou 10, o Náutico, 3, e o Santa Cruz apenas 1. Como se não bastasse, ainda conquistou uma Copa do Brasil em 2008 e disputou uma Taça Libertadores da América sem fazer feio. Hoje, mesmo na Série B, desponta como um dos francos favoritos ao acesso, bem como ao título da competição. Apesar do início ruim, com R$ 7 milhões livres e de bandeja fornecidos pelo C13, rapidamente injetou dinheiro em boas contratações e resolveu o problema.

Enquanto isso, o Náutico conseguiu, a duras penas, se manter durante dois anos na 1a. divisão nacional para cair para a Série B no terceiro. Hoje, mesmo jogando na mesma divisão que o Sport, não tem direito a um único centavo do C13, não consegue se sustentar e, ao que tudo indica, se não cair para a Série C, já estará no lucro. Voltar à Série A parece um sonho impossível.

O cada vez mais paupérrimo Santa Cruz, por sua vez, vai para o terceiro ano na esquecida e melancólica Série D. Aporte financeiro, nenhum, falência completa, um verdadeiro morto-vivo. Sua imensa torcida, outrora a maior do Estado, só pode hoje curtir a si própria, pois time não mais possui.

A verdade é que o Campeonato Pernambucano se tornou um cansativo "samba de uma nota só", um enfadonho "mais do mesmo". Muitos alvirrubros temem que o único título que somente o Náutico possui no Estado, o de hexacampeão pernambucano, deixe de ser exclusividade em 2011. Eu não mais temo, pois já vejo isso como uma certeza que só aguarda uma protocolar consumação fática. Nessa seara, o Sport não somente poderá ser hexa, mas hepta, octa etc.

O fato é que nos transformamos em um Estado de um só clube. A competitividade acabou, o Sport já é campeão antes mesmo do início do campeonato.

Parece que a hoje velada intenção da CBF e do C13 de acabarem com os campeonatos estaduais está se concretizando por inanição. O esvaziamento dos mesmos por se tornarem cada vez menos interessantes e menos competitivos se consubstancia na dinheirama do C13 recebidas no Nordeste exclusivamente por Sport, Bahia e Vitória, ficando todos os demais à míngua e mendigando migalhas.

Nenhum campeonato sobrevive sem que pelo menos dois clubes lutem de fato pelo título com reais condições de conquistá-lo. A se considerar isso, o Campeonato Pernambucano morreu. O futebol pernambucano morreu, hoje só existe o futebol do Sport Clube do Recife. A ele, absolutamente tudo, aos demais, absolutamente nada, é a mais dura realidade, para deleite dos rubronegros, e tristeza de alvirrubros, tricolores e apreciadores de boas competições.

Que comece a missa fúnebre...

terça-feira, 13 de julho de 2010

¡Y viva España! - pelo bem do futebol




Com Brasil e Portugal fora das semifinais da Copa do Mundo, não posso negar que toda minha torcida foi para el país de mis ancestrales: virei Espanha desde criancinha, embora nada tenha contra holandeses, alemães ou mesmo argentinos.

A razão de minha torcida pela Fúria, porém, tem outras motivações para além da mera questão sentimental. Apesar de não ser uma das melhores seleções campeãs que vi jogar, a Espanha apresentou de longe o melhor futebol desta Copa. E mais ainda: apesar da falta de bons atacantes e de boa pontaria, mostrou ser um time que busca o resultado, que vai para cima dos adversários, que quer jogar de verdade e não só marcar. Possui um toque de bola refinado, joga muito bem em conjunto e envolve os adversários, ditando o ritmo do jogo. Com a exceção do Brasil de 2002, as demais seleções campeãs desde 1990 sempre fizeram o oposto: muita marcação, não deixar o adversário jogar e, se der, vai lá na frente de vez em quando e faz um ou dois golzinhos, no máximo. Não importa jogar bem, tem é que vencer - essa virou a filosofia básica dos treinadores das últimas décadas.

Lembro sempre, embora eu fosse muito criança na época, da maravilhosa seleção brasileira de 1982, que encantou o mundo, mas não foi campeã, esbarrando no ferrolho burocrático italiano e no oportunismo de Paolo Rossi. Na minha mente de criança com apenas 8 anos, via o time de Zico, Sócrates e Falcão como tão extraordinário que seria impossível derrotá-lo. Ainda hoje, quando assisto as cenas daqueles jogos, vejo o Brasil de 1982 como a nossa melhor seleção de todos os tempos, apesar do resultado adverso naquele fatídico Brasil x Itália.

Depois da "laranja mecânica" (o "Carrossel" holandês) de 1974 e a Canarinha de 1982 terem encantado o mundo, sem serem campeãs, passou a prevalecer a "eficiência" em vez do bom jogo. Dos clubes às seleções, a preocupação exacerbada com a defesa e com o "futebol de resultados", fez com que o futebol se enchesse de gente que não gosta de futebol, gosta apenas de vencer! A vitória a qualquer custo, isso é que vale, jogar bom futebol se tornou totalmente desnecessário.

O interessante é que várias dessas seleções, o Brasil de Lazaroni (1990) e de Dunga (2010), a Holanda vice-campeã atual, abriram mão das características tradicionais de seus times em busca do "jogar feio, mas ganhar", e os resultados foram pífios, como atestam as campanhas dos referidos selecionados. E não se diga que o Brasil de 1994 provaria o contrário, pois ali, se não tivéssemos a genialidade da dupla de ataque Bebeto-Romário, jamais teríamos feito grande coisa - ainda assim na final só ganhamos nos penaltis!

Por isso que a Espanha atual de David Villa, Casillas e Puyol pode se tornar um divisor de águas. Foi o time que mais buscou vencer, fazer gols (apesar da falta de pontaria não ter ajudado) e jogar para frente. Nem por isso deixou de ser eficiente lá atrás, levando apenas dois gols em sete jogos. Aliou eficiência e bons resultados a um jogo bonito e vistoso, de modo que mereceu de longe o título.

Espero que os treinadores passem a valorizar mais isso, a se espelhar mais no Brasil de 2002 e na Espanha de 2010 ao invés do suposto jogo "pragmático" do "futebol de resultados".

Y viva España!

SOBRE A ALEMANHA

Não podia deixar de falar sobre uma grata surpresa dessa Copa que foi a seleção alemã. Jogou bem e bonito e embora tenha esbarrado na Espanha, apresentou belíssimo futebol, sem perder em eficiência. Belas goleadas sobre a Inglaterra e a Argentina encantaram os que gostam verdaeiramente de futebol e não somente de bons resultados.

O curioso é que vi alguns desses comentaristas de futebol falando bobagens contra o excesso de naturalizações e descendentes de pessoas de outras nacionalidades na seleção da Alemanha, o que descaracterizaria um time autenticamente nacional, inclusive com exigências de que a FIFA teria que tomar providências quanto a isso. Um discurso desses está mais para "purismo ariano" nazista do que para a ideia de confraternização pelo esporte que tais competições devem trazer.

Eu tenho o pensamento totalmente oposto: vejo com muita alegria e contentamento esse "multiculturalismo alemão". Para um país que ficou estigmatizado com o racismo nazista, admitir que poloneses (Podolski, Klose e Trochowski), turcos (Özil e Tasci), bósnios (Marin), tunisianos (Khedira), espanhóis (Mario Gomez), e até mesmos negros da Nigéria (Aogo), de Gana (Jérôme Boateng) e do Brasil (Cacau) sejam considerados legítimos alemães e representantes desse país no maior evento esportivo do planeta é bastante alvissareiro.

E vivas também à Alemanha do século XXI e aos "alemães multiculturais". Neues multikulturalisches Deutschland, viva!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Afetos e ideias

"Fingimos que sabemos o sentido de nossas vidas, vendo-o como sendo o "avanço" ou o "progresso" técnico, ético e social. Para cada avanço, um afeto se esvazia sob o dilaceramento das relações (burocratizadas) que se dissolvem no ar. Os afetos, e não as ideias, nos humanizam, e afetos não são passíveis de uma geometria do útil."
Luiz Felipe Pondé

sábado, 1 de maio de 2010

Semana jurídica de altos e baixos




Esta foi uma semana de altos e baixos nos tribunais superiores.

O Superior Tribunal de Justiça, através de sua 4ª Turma, tomou decisão profundamente inovadora em termos de direitos fundamentais, reconhecendo o direito de um casal homossexual feminino de adotar crianças.

Trata-se de um casal de lésbicas do Rio Grande do Sul em que uma delas adotou duas crianças ainda bebês. Elas vivem juntas desde 1998 (mais de 10 anos, configurando claramente uma união estável) e almejaram com a adoção a extensão de garantias às crianças, tais como plano de saúde e benefícios previdenciários.

Apesar da resistência do Ministério Público gaúcho, a adoção fora julgada procedente por ambas as instâncias judiciais daquele Estado e recebeu aprovação pelo laudo da assistência social, assim como por parecer do Ministério Público Federal. A decisão do STJ considerou, segundo o Relator, Min. Luís Felipe Salomão, que o que deve prevalecer são os interesses da criança que, no caso, seriam plenamente atendidos. Além do voto favorável à manutenção da decisão do referido Ministro, os demais da 4ª Turma, Mins. Aldir Passarinho Jr. e João Otávio Noronha, decidiram no mesmo sentido.

Creio ser de grande avanço social uma decisão como esta. Embora eu discorde do patrulhamento que muitas vezes é feito por movimentos de defesa dos direitos dos homossexuais (vejo, p. ex., a criminalização da homofobia em si mesma como um claro exagero), concordo com tudo o que venha a proporcionar-lhes igualdade de direitos com os heterossexuais, já que os deveres são iguais para todos.

É incrível que, em pleno séc. XXI, ainda sejam negados aos homossexuais direitos tão elementares como a regulamentação jurídica de suas uniões civis (o "casamento gay" não é nada mais que isso), ainda mais por razões obscurantistas ou religiosas, inadmissíveis para ditar políticas públicas em um Estado laico.

No caso da adoção, a relação é mais complexa, pois lida com o direito fundamental de um terceiro, a criança. Concordo com o Min. Salomão: o fundamental é atender os interesses desta última. Se o casal homossexual possui todas as condições legais e sócio-econômicas, constatadas por rigorosa investigação social, é muito melhor que essa criança receba o carinho, apreço e dedicação de dois pais ou duas mães do que ficarem abandonadas em orfanatos, se tornando meras estatísticas. Casais homo ou heterossexuais podem ou não estar aptos a adotar. Nesse caso, a investigação social é decisiva.

Por outro lado, o Supremo Tribunal Federal decidiu por 7 x 2 que a Lei da Anistia é aplicável também aos torturadores do regime militar, ou seja, a referida lei alcança todos aqueles que praticaram tortura e outros crimes em nome do Estado durante a ditadura militar.

A Lei 6683/1979 é dirigida a anistiar os crimes políticos e conexos cometidos durante o período do regime de exceção. Foi sempre interpretada como anistia aos ditos subversivos e também como uma autoanistia aos militares e agentes do Estado. Tal interpretação mais uma vez foi corroborada, não sem polêmica, como comprovam a ADPF ajuizada pela OAB e os votos divergentes dos Mins. Carlos Ayres Britto e Ricardo Lewandowski. Prevaleceram, contudo, os votos do Relator, Min. Eros Grau, e os dos Mins. Carmem Lúcia Rocha, Celso de Mello, Cézar Peluso, Ellen Gracie, Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello. Os Mins. Dias Toffoli e Joaquim Barbosa não participaram do julgamento, o primeiro por ter atuado no processo como Advogado Geral da União e o segundo por estar em licença médica.

Apesar de acreditar que, na prática, seria extremamente difícil a condenação de um torturador daquela época, tendo em vista as dificuldades próprias de um processo penal justo com todas as garantias das quais não se pode abrir mão, creio ser lamentável a interpretação dada pelo STF. Ela contraria a quase totalidade das tendências em outros países de se aplicar os tratados internacionais de direitos humanos e, no caso particular do Brasil e da América Latina, a Convenção Americana de Direitos Humanos. Há jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos negando a possibilidade de autoanistia (Casos Almonacid Arellanos y Otros x Chile/2006 e Barrios Alto, Chumbipuma Aguirre y Otros x Peru/2001), assim como afirmando o entendimento corrente de que tortura é crime contra a humanidade e consequentemente imprescritível. Países como Argentina e Chile tem enfrentado a questão com coragem, acertando as contas com o passado e criando circunstâncias para que tais abomináveis atos não mais sejam cometidos no futuro.

Ora, tortura é crime comum. Crime político é aquele cometido contra o Estado e não por seus agentes. Nas ditaduras, o crime político, puro ou impuro, termina por ser a única alternativa daqueles que pretendem contestar a ordem vigente, já que não lhes é dado o direito de divergir democraticamente. Já os agentes do Estado possuíam alternativas e nem mesmo a legislação do período previa a tortura como meio regular de investigação e combate à "subversão".

Não se trata de rever a Lei da Anistia, como alguns equivocadamente afirmam, mas de interpretá-la em consonância com o que há de mais avançado em termos de direito internacional de direitos humanos e de direito constitucional contemporâneo. O STF foi implacável contra o ativista político italiano Cesare Battisti, afirmando que ele cometera crimes comuns e não políticos, mas se amedronta diante dos antigos militares, buscando argumentos anacrônicos para declarar que crimes de lesa humanidade são crimes políticos. Como afirmou Ophir Cavalcante, Presidente da OAB, o STF perdeu "o bonde da história".

Estou com o Min. Ayres Britto, na minha modesta opinião, o melhor e mais sensato Ministro da atual composição do STF. Assim afirmou: "O torturador não é um ideólogo. Ele não cometeu crime de opinião, portanto não comete crime político. É um monstro, um desnaturado, um tarado.". Assino embaixo.

Vamos ver agora o que o STF dirá sobre a questão dos arquivos secretos da ditadura. É esperar para ver.

sábado, 6 de março de 2010

Intervenção federal: traumática, mas eventualmente necessária



Não farei aqui maiores considerações sobre o envolvimento do Governador José Roberto Arruda na atual crise institucional do Distrito Federal. As imagens veiculadas são tão veementes que nem no próprio partido do Governador (o Democratas, ex-PFL) se percebe movimentação contundente em seu favor.

É melhor tratar de uma outra questão que ocupará a pauta do Supremo Tribunal Federal nos próximos dias: a representação do Procurador Geral da República propondo intervenção federal no Distrito Federal.

A intervenção federal no Brasil foi criada no contexto da Constituição de 1934 como forma de conter uma aparentemente excessiva autonomia dos Estados membros da Federação brasileira à época. Foi uma resposta aos ditos excessos da época da República do "Café com Leite", exemplo histórico de que nem sempre descentralização implica em melhor funcionamento do poder público.

Na sistemática da Constituição de 1988, muitas representações para intervenção federal foram protocoladas durante esses mais de 20 anos de vigência da atual Carta Magna brasileira. Contudo, nenhuma delas chegou a seu termo, seja por perda do objeto (normalmente os agentes estaduais decidindo cumprir suas obrigações constitucionais e legais para evitar a perda temporária de autonomia do Estado), seja pelo fato de que a intervenção é normalmente inconveniente para o próprio poder federal, já que implica, dentre outros efeitos, na impossibilidade de aprovação de qualquer emenda à Constituição durante o período em que estiver vigente o referido ato interventor.

Ou seja, diante do desinteresse concreto, tanto do poder público federal como do estadual, a intervenção federal tem sido muito mais um instrumento de coerção psicológica e de violência simbólica contra os agentes estaduais desidiosos do que um ato que de fato se estabeleça como limitador da autonomia dos Estados.

Talvez isso tenha um desfecho diferente no atual caso do Distrito Federal. Nele estão presentes o grave comprometimento da ordem pública e a violação de vários dos denominados "princípios sensíveis" (na linguagem de Pontes de Miranda) da Constituição, como a forma republicana, o sistema representativo, o regime democrático e a prestação de contas da administração pública direta e indireta (CF, art. 34, III e VII, a e d). A crise atinge os poderes executivo e legislativo do DF de modo generalizado, comprometendo seriamente os princípios aludidos, daí a representação proposta feita pelo Procurador Geral da República Roberto Gurgel.

Pelas regras do processo constitucional, o chefe do Ministério Público da União propõe a representação, o STF a julga e, em caso de sua procedência, o Presidente da República possui a incumbência de decretar a intervenção federal, sendo tal decreto delimitador dos termos desta. Há dúvidas sobre se o Presidente teria a faculdade ou a obrigação de decretar a intervenção, havendo respeitáveis posições doutrinárias num e noutro sentido. Como não tivemos ainda uma intervenção levada a esse estágio, a jurisprudência do STF ainda não deu resposta a essa indagação, permanecendo fértil o campo dos teóricos constitucionais a respeito.

A intervenção federal é sempre traumática e não é por acaso que suas hipóteses constitucionais são taxativas e excepcionais. Deve prevalecer, sempre que possível, a autonomia dos Estados. Contudo, isso não deve impedir a sua quebra todas as vezes em que a ordem pública e o bem comum estejam sofrendo sério comprometimento. É dever das instituições públicas federais assumir tal ônus em casos de tal gravidade, pois a autonomia estadual é um meio para a promoção mais descentralizada da cidadania e não um fim em si mesmo.

Vamos acompanhar qual será a resposta da Corte Suprema para mais essa questão.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Seminário "Feminismo e Direito" na UFPE

Segue programação do Seminário "Feminismo e Direito" em homenagem à Semana da Mulher e ao Dia Internacional da Mulher. Quem puder ir, vale a pena, conheço vários dos palestrantes.
Aproveito para antecipadamente desejar a todas as leitoras um feliz dia e semana da Mulher. Vocês, mulheres (leitoras ou não), são sempre maravilhosas!!!

Seminário: Diálogos entre feminismo e direito: aportes teóricos e práticas da sociedade.

Local: Auditório Tobias Barreto – Faculdade de Direito do Recife (Praça Adolpho Cirne, s/n, Boa Vista, em frente ao Parque 13 de maio).

Organização: Coordenação de Extensão da Faculdade de Direito do Recife: Prof. Alexandre da Maia, acadêmicos Gabriela Pires, João Marcos Ezaquiel, Ítalo Lopes e Felipe Melo França (arte).

Horas-NAC: 20 (vinte) horas. Inscrições gratuitas no local do Seminário.

segunda-feira, dia 8 de março

Das 10h às 12h

ABERTURA: Profa. Dra. Luciana Grassano (Diretora da Faculdade de Direito do Recife)

Prof. Dr. Eduardo Rabenhorst (diretor da Faculdade de Direito da UFPB). Direito e justiça em chave feminista.

Prof. Dr. José Luiz Horta (UFMG). O justo na era do ético.

Das 20h às 22h

Exibição do filme “XXY” [2007], de Lucía Puenzo, seguida de debates.

terça-feira, dia 9 de março

10h às 12h

Profa. Dra. Marília Montenegro (UNICAP). Da “mulher honesta” à Lei Maria da Penha: uma abordagem da mulher no Direito Penal.

Das 20h às 22h

Profa. Msc. Ana Paula Portella (doutoranda em sociologia pela UFPE e pesquisadora do NEPS) – Violência contra a mulher

Prof. Msc. Roberto Efrem Filho (UFPB). Direito, gênero e diversidade.

quarta-feira, dia 10 de março

10h às 12h

Elizabeth Siqueira (UNICAP). “Eu quero votar”: as pernambucanas e o sufragismo.

Sandra Gomes (Comunidades Eclesiais de Base). A mulher na Igreja e as comunidades.

Das 20h às 22h

Luzia Azevedo (Mestre em sociologia pela UFPE) – Democracia, intolerância e aborto.

Mariana Azevedo (Coordenadora de projetos do Instituto PAPAI). Homens e feminismo.

quinta-feira, 11 de março

Das 9h às 11h

Rejane Pereira (Secretaria Especial da Mulher da Prefeitura do Recife). Feminismo, direito e as políticas públicas relacionadas ao direito da mulher.

Profa. Dra. Cynthia Hamlin (Professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE). Democracia, justiça social e tolerência: debatendo o aborto no Brasil e no Canadá.

20h às 22h

Exibição do filme “La teta asustada” [2009], de Claudia Llosa, seguida de debates.

sexta-feira, 12 de março

Das 10h às 12h

Profa. Dra. Mercês Cabral (UFRPE). Feminismo: uma luta por direitos.

Das 20h às 22h

Profa. Dra. Renata Rolim (UFPB). Gênero e violência nos meios de comunicação.

Profa. Sílvia Dantas (mestre em Serviço Social da UFPE). A história do feminismo no Brasil.

Encerramento

Ateísmo, espiritualidade e budismo

No último domingo, participei de uma celebração religiosa singular: a Cerimônia de Refúgio na Joia Tríplice, realizada no Templo Budista Fo Guang Shan localizado em Olinda. Tal evento é algo mais ou menos equivalente a um batismo no budismo, feito por aqueles que desejam se tornar formal e publicamente budistas. A Joia Tríplice compreende o Buda, o Darma e a Sanga que são, respectivamente, o iluminado precursor da compreensão das profundezas da espiritualidade humana e potencialidades de sua realização, os ensinamentos da filosofia de vida budista e a comunidade de budistas, monges e leigos, embora algumas linhagens do budismo chinês considerem Sanga apenas a comunidade monástica. Ao fazer os votos, o budista declara de público a vontade de fazer do budismo sua filosofia de vida.

Pela manhã, fomos brindados com uma palestra do Mestre chinês Hsin Ting (foto), vindo diretamente de Taiwan para falar sobre “Carma e Lei de Causa e Efeito”, bem como para presidir a Cerimônia especial à tarde. O referido Mestre é um dos grandes nomes mundiais do budismo humanista, da linhagem Mahayana, e foi Abade Geral da Ordem Monástica Fo Guang Shan, que possui templos espalhados por todos os continentes do mundo.

Já há algum tempo venho fazendo leituras budistas a partir da teoria e prática da meditação zen. A doutrina budista me responde muitas das indagações espirituais que sempre me fiz e que as demais religiões, pelas quais não obstante nutro profundo respeito, não me respondiam.

O cristianismo ocidental no qual fui educado, seja na modalidade católica ou protestante/evangélica, faz em geral um proselitismo militante do tipo “venha e creia”, baseado na autoridade de padres, pastores, bispos e papas que dizem “verdades de fé” reproduzindo ou interpretando a Bíblia, “verdades” estas que devem ser aceitas ainda que não façam muito sentido. A fé agostiniana do “creio, mesmo que absurdo!” (creo quid absurdum).

Não vi tal proselitismo no budismo. Os budistas normalmente vão dizer “venha e veja” ao invés de “venha e creia”. É fé religiosa, mas profundamente embasada na racionalidade de suas premissas e consequências. A inteligibilidade da ideia do carma, da lei de causa e efeito, dos diversos planos espirituais dos seres sencientes me chama a atenção, assim como o aspecto concreto dos méritos espirituais com a prática sincera e irrestrita do bem e o equilíbrio corpo-mente-espírito proveniente de atividades meditativas e contemplativas que ensejam paz e tranqüilidade aos praticantes. Parece ser, como afirmou o Mestre Hsin Ting, o “creio, pois faz sentido”.

É claro que pessoas com espiritualidade aguçada e profunda existem em todas as religiões e mesmo fora delas. Conheço católicos, evangélicos, judeus, espíritas, islâmicos, agnósticos e ateus, bem como crentes em Deus sem religião definida, que possuem grande espiritualidade e praticam verdadeiramente o que pregam, com tolerância e respeito aos demais. Qualquer religião pode servir de caminho ao engrandecimento espiritual. Só não pode ser considerada “o único caminho”. É aí, quando posam de “donas da verdade”, que as religiões começam a criar problemas (e quantas guerras e assassinatos se fizeram em nome de Deus...).

No caso do budismo, historicamente, não há uma única guerra associada a tentativas de sua expansão. Os países de maioria budista enfrentaram guerras como todos, algumas terríveis, mas não por razões de expansionismo religioso.

O curioso é que levei um amigo, que se diz(ia) ateu, para assistir a Cerimônia. Havia comentado a respeito e ele se interessou bastante. Como o budismo é uma religião não teísta (no sentido de acreditar em um Deus que interfira diretamente nas coisas humanas), o diálogo com ateus e agnósticos que se sentem impelidos à espiritualidade, mas esbarram na ilogicidade de um Deus antropomórfico feito à imagem e semelhança do homem e presente na maioria das religiões, fica bastante facilitado. Deus certamente está muito além desse tosco entendimento humano, tendo criado em algum momento leis físicas e espirituais universais que sempre se aplicam. Cabe a nós tentar compreendê-las e usá-las em favor de toda a humanidade.

E é por isso que nenhuma religião, nem mesmo o budismo, possui plenamente a verdade. Mas a ampla compatibilidade da doutrina budista com o conhecimento científico demonstra que fé e ciência podem sim andar juntas e não necessariamente são antitéticas.

Pois é, e o "ateu" ficou encantado e disse que quer continuar frequentando o templo. Isso serve para enxergarmos que a nossa espiritualidade pode brotar e frutificar onde e em quem quer que seja e é preciso percebê-lo de forma despreconceituosa, com a mente aberta, tolerante e respeitosa.

Já vi tanta gente dizer que só quem acredita em Deus é espiritualizado. Que bobagem...

De minha parte, continuarei a eterna busca de engrandecimento e evolução espiritual, aspiração permanente e interminável de todos nós, mas tão pouco provável de alcançar de forma plena...

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Informar é preciso

Depois de tanto tempo sem postar, volto a fazê-lo com esse divertido texto de Carlos Heitor Cony:

"Com a redundância de informações, via jornais, TVs, rádios e agora a internet, busco em folhas antigas alguma coisa que não seja sucessão presidencial e crise no DF. Dou de cara com uma nota que veio de Bombaim: Suicidou-se na tarde de ontem um faquir aposentado que abandonara a família para se dedicar à adoração do Sol, do Boi e da Cebola. Tantas fez que descolou um discípulo, Amaro das Vinhas, natural do Crato, a quem o faquir ensinou um modo de preparar carne de boi ao sol com bastante cebola. Amaro morreu de indigestão, mas feliz, pois descobrira que praticara a teofagia, ou seja, comera seus deuses.

Em Rangoon, o mais famoso poeta de Burma espantou seus admiradores quando saiu de casa completamente nu. Impelido pela multidão para o interior de um templo, o poeta começou a bradar em altas vozes: "A poesia morreu, deixem-me morrer também!". A polícia tentou negociar, dizendo que o poeta podia morrer, mas tinha de se vestir primeiro. Em sinal de protesto, o poeta preferiu continuar vivo e nu. Sacerdotes do templo pediram aos fiéis que orassem pelo bardo em desespero.

No largo dos Pilares, no Rio, o menor Francisco Clementino, de 11 anos, foi preso em flagrante quando seduzia uma senhora de 65 anos. Chamado a intervir no caso, o juiz de menores pediu em edital que alguém tomasse conta do garoto. Apresentou-se uma senhora de 65 anos, que o juiz suspeita ter sido a mesma que fora seduzida pelo menor.

No Tibete, voltou ao principal convento da maior cidade local um monge budista que fora preso na Via Veneto, em Roma, em atitude de exibicionismo sexual. Repatriado ao Tibete, o monge organizou uma expedição de outros monges para conhecer os perigos daquela cidade cristã e pecaminosa."