quarta-feira, 1 de abril de 2015

2 de abril: Dia Mundial de Conscientização do Autismo



Venho através deste texto divulgar importante evento de utilidade pública e trazer algumas informações relevantes a todos os interessados no tema.

O evento é o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. A data escolhida pela Organização das Nações Unidas foi o 2 de abril e desde 2008 ocorrem eventos no mundo inteiro tentando sensibilizar o necessário debate público sobre essa síndrome ainda pouco conhecida e estudada. O objetivo da mobilização mundial é exatamente incrementar o conhecimento e a compreensão dos transtornos do espectro autista (TEA - nome técnico do conjunto de síndromes associadas ao autismo), bem como a criação de mecanismos de auxílio às pessoas que tem a síndrome, combatendo o preconceito e a desinformação com informação e inclusão.

Nos próximos dias, especialmente nesta quinta, 2 de abril, muitos prédios públicos estarão iluminados de azul (a cor oficial do autismo). Simpatizantes da causa estarão em vários lugares da cidade vestidos de azul e conversando com as pessoas numa mobilização conscientizadora. No ano passado estiveram iluminados o Palácio das Princesas, o Tribunal de Justiça e a Faculdade de Direito do Recife aqui em Pernambuco, bem como o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, o Viaduto do Chá, em São Paulo e o edifício do Senado Federal, em Brasília. Também azulados estiveram o Empire State Building, em New York/EUA, a CN Tower, em Toronto/Canadá, a Torre Eiffel em Paris/França e o Taj Mahal, na Índia. Provavelmente assim estarão novamente, bem como outros prédios.

O autismo é mais comum em crianças do que AIDS, câncer e diabetes juntos. É uma síndrome complexa e muito mais comum do que se pensa. Nos EUA, as mais recentes pesquisas do CDC (Center of Diseases, Control and Prevention), órgão do governo norte-americano, aponta para um número alarmante: 1 em cada 50 crianças estão no espectro autista entre os graus mais leves e mais severos da síndrome. No Brasil, apesar de alguns avanços significativos nos últimos anos, notadamente em função da árdua luta de pais, familiares e amigos de autistas pela conscientização e respeito aos direitos, ainda carecemos de estatísticas mais precisas, pois segundo o Coordenador do Programa de Transtornos do Espectro Autista do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, o médico psiquiatra Estêvão Vadasz, é provável que cerca de 90% dos autistas brasileiros não tenham sido diagnosticados. No mundo, segundo a ONU, é de aproximadamente 70 milhões de pessoas os número de pessoas com autismo, sendo a incidência muito mais comum nos meninos do que nas meninas, na proporção de quatro para uma.

Em 2010, o Presidente dos EUA Barack Obama, em discurso no dia 2 de abril, ressaltou os avanços nas pesquisas, mas o longo caminho ainda a percorrer para que os autistas possam ser respeitados nas suas diferenças e terem direito à qualidade de vida, bem como ao exercício dos demais direitos fundamentais.

No Brasil, é preciso alertar as autoridades e o sistema de saúde pública para incremento das pesquisas a respeito da síndrome. Urgem políticas públicas de saúde para diagnóstico e tratamento das pessoas com TEA. Especialmente o diagnóstico precoce é considerado fundamental para a eficácia dos tratamentos também iniciados precocemente, propiciando um elevado grau de sucesso na melhoria da qualidade de vida dos autistas, bem como do aproveitamento de suas por vezes incríveis potencialidades.

Alertar para o problema é um passo muito importante, pois essas crianças possuem no mais das vezes inteligência normal, algumas chegam até a serem geniais, mas necessitam de um acompanhamento especializado para desenvolverem suas habilidades e saírem do isolamento. Uma parte significativa deles, quando os pais possuem informação, alguma condição financeira e muita dedicação, consegue estudar, ter uma profissão e até ganhar bem (há casos de autistas engenheiros, professores, historiadores, físicos, e até médicos, músicos e cineastas), embora fiquem socialmente estigmatizados como "loucos", "esquisitos" e "anti-sociais". Os que não têm a sorte de terem pais conscientes e/ou com boas condições financeiras de custear os tratamentos, são frequentemente atirados em instituições psiquiátricas e abandonados à própria sorte, às vezes pela própria família que não sabe lidar com a síndrome.

SOBRE AUTISMO E AUTISMOS: INFORMAÇÃO É FUNDAMENTAL

O autismo faz parte de um grupo de distúrbios cerebrais chamados de transtornos invasivos do desenvolvimento, transtornos globais do desenvolvimento ou ainda transtornos do espectro autista. Dentro desses transtornos, estão várias síndromes com características específicas: o autismo clássico, o autismo atípico sem especificação, o transtorno desintegrativo da infância e a síndrome de Asperger estão entre elas. Há também vários graus do distúrbio, desde os mais leves sem comprometimento da inteligência até os mais graves que podem vir associados a retardos mentais. Contudo, é profundamente equivocado afirmar que o autista é um "retardado mental". Os retardos podem ocorrer, mas a grande maioria não possui comprometimentos cognitivos nem cérebros significativamente distintos das pessoas sem autismo (seus problemas estão mais ligados à incomunicabilidade e ao isolamento excessivo). Por outro lado, filmes como "Rain Man", "Código para o Inferno" e "Os Homens que não Amavam as Mulheres" podem dar a falsa ideia de que os autistas, embora isolados e quase incomunicáveis, são gênios de inteligência assombrosa. É verdade que estudos apontam que certas personalidades históricas geniais como Mozart e Einstein possuíam fortes características do espectro autista e nos dias atuais poderiam talvez ter um diagnóstico de TEA. Mas esses casos de genialidade também são raros.

A medicina e a ciência em geral ainda sabem muito pouco sobre o autismo: descrito em 1943 por Leo Kanner, este pesquisador observou o comportamento bastante original de 11 crianças com distúrbios afetivos e comunicativos diferenciados em relação a outras síndromes de natureza psiquiátrica; quase simultaneamente, o pediatra austríaco Hans Asperger também empreendeu pesquisas que resultaram na análise de crianças com distúrbios semelhantes, porém sem comprometimento cognitivo sério, o que ficou conhecido como síndrome de Asperger, um subtipo de transtorno do espectro autista.

Entretanto, não obstante os avanços das últimas décadas, as causas do autismo ainda são desconhecidas e as hipóteses propostas ainda não possuem lastro científico sólido. Pesquisas continuam a ser empreendidas para descobri-las, construir intervenções médicas, psicológicas, pedagógicas, dietéticas etc. mais eficazes e até mesmo a tão esperada cura, com destaque para o trabalho do neurocientista brasileiro Alysson Muotri que, em suas pesquisas na Universidade de San Diego/Califórnia (EUA), chegou a corrigir um neurônio autista em experiência laboratorial.

Enquanto a ansiada cura não vem, é preciso planejamento e ação em torno de políticas públicas para permitir que os autistas sejam incluídos na vida social e possuam maior qualidade de vida e respeito das pessoas que com eles convivem.

SINAIS DE UM POSSÍVEL DIAGNÓSTICO DE AUTISMO

É preciso estarmos atentos, pais, familiares e profissionais, a alguns sinais que podem estar associados à síndrome. Alguns deles:
  • Na idade de início da linguagem verbal, por volta de 1 ano e meio, a criança não fala, não olha nos olhos e mostra certa apatia. Têm uma fisionomia pouco expressiva e não interage com outras crianças. Se a criança começa a falar e depois regride na linguagem verbal, isso também é um sinal de alerta.
  • Aparente desinteresse pelos pais, irmãos e familiares
  • Manutenção de comportamentos repetitivos, por vezes obsessivos e sem finalidade aparente. Ficar horas fazendo o mesmo movimento, com o mesmo objeto. Também atenção a movimentos corporais repetidos, como movimentos de balanço das mãos, braços ou corpo inteiro, às vezes, até de forma violenta.
  • Utilização das pessoas como instrumento. Pega na mão do adulto e o leva até o lugar onde quer que ele faça algo que ela deseja, ao invés de pedir o que quer na forma de uma solicitação verbal.
Claro que isso são apenas alguns exemplos e não significa que se a criança apresenta tais comportamentos, necessariamente esteja no espectro autista. Mas é preciso ficar alerta e buscar ajuda. Nem sempre os pediatras estão preparados para essa análise, é muito comum ouvir que isso é uma fase, que vai passar etc. Diante dessas situações, não espere: busque ajuda de um neuropediatra ou de um psiquiatra infantil, que são os profissionais normalmente mais aptos para tal diagnóstico. Quanto mais cedo o tiver, mais rápido serão feitas as intervenções terapêuticas necessárias e o prognóstico em relação ao desenvolvimento da criança certamente será bem melhor.

SOBRE OS DIREITOS DA PESSOA COM AUTISMO

Importante destacar que, em 27 de dezembro de 2012, foi publicada a Lei 12764/2012, conhecida como Lei Berenice Piana (uma homenagem a essa verdadeira guerreira, mãe de um autista e uma das principais articuladoras da referida Lei), que traz inovações relevantes no tratamento legal e nos direitos da pessoa com autismo. São elas:


  • a pessoa com autismo é reconhecida como pessoa com deficiência para todos os fins legais, tendo prioridade no atendimento médico-hospitalar e filas em geral, bem como implicando em deveres do Estado, da família e da sociedade em geral (incluindo aí as empresas privadas) a tomarem iniciativas com vistas à viabilização dos seus direitos;
  • obrigação do Estado de desenvolver políticas públicas específicas para a pessoa com autismo;
  • acesso a serviços de saúde em condições de igualdade com as demais pessoas, incluindo o direito ao diagnóstico precoce, atendimento multiprofissional necessário e medicamentos, bem como a impossibilidade das empresas de plano/seguro saúde de recusarem a inscrição ou a permanência de pessoas com autismo como seus segurados em razão da síndrome;
  • acesso amplo à educação, o que implica em:

a) dever da escola – pública ou privada – de providenciar acompanhante especializado/mediador em sala de aula, quando isso for necessário ao desenvolvimento do aluno com autismo;

b) proibição de discriminação em relação às vagas escolares, sendo crime a recusa de vaga à criança com autismo ou com qualquer deficiência em razão da mesma (Lei 7853/1989, art. 8º, I), punível com reclusão de 1 a 4 anos, além de multa e perda do cargo, no caso do gestor público.

No âmbito da Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco, está em tramitação o Projeto de Lei Ordinária nº 47/2015, de autoria da Mesa Diretora da Casa, que traz vários desdobramentos adicionais complementando a Lei Berenice Piana no tratamento específico do tema. No Município de Recife, Projeto de Lei de autoria do Vereador Osmar Ricardo (PT) estabelece reserva de vagas para alunos com autismo nas instituições públicas e privadas da Capital pernambucana.

Fiquemos atentos. A vigência da legislação é um primeiro e importantíssimo passo, mas é necessário fiscalizar o seu cumprimento.

Mais informação e inclusão, menos ignorância e preconceito.

Vista azul você também neste dia 2.


Por BRUNO GALINDO
Professor Adjunto da Faculdade de Direito do Recife/UFPE
Presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/PE
Pai de Heitor, 7, e Nicolas, 5, sendo o primeiro criança com transtorno do espectro autista

sábado, 7 de março de 2015

Mas o direito constitucional ainda resiste!



É curioso, no mínimo, ver gente da área jurídica, que defende no discurso a ampla defesa, o contraditório e o devido processo legal, ficar vociferando nas redes sociais, especialmente no Facebook, por que Dilma não está na lista dos investigados da Lava Jato ou por que Genoíno foi indultado pelo Decreto assinado por Dilma.

Isso é aceitável dos juridicamente leigos, mas essa histeria antipetista partindo de juristas que têm por obrigação conhecer o direito e suas possibilidades se afigura patética. Engolirem, por cegueira, teimosia ou má-fé, qualquer coisa que se diga contra o governo ou contra petistas, demonstra que o acirramento político-eleitoral costuma obnubilar até mesmo àqueles que deveriam ter mais cuidado ao compartilhar ou fazer afirmações sem base, principalmente quando estas contrariam os mais elementares princípios constitucionais do Estado democrático de direito.

O pedido de investigações feito pelo Procurador-Geral da República Rodrigo Janot aparentemente é bastante equânime. Acredito que o mesmo merece, aliás, congratulações pelo trabalho sério que vem realizando, sem se render a conveniências governistas ou oposicionistas. Muita gente de todos os lados do espectro político-partidário anda contrariada com o PGR, o que, para mim, é ótimo sinal. Quando percebeu indícios razoáveis de que políticos de vários partidos podem estar envolvidos na corrupção investigada, relacionou-os e requereu as devidas apurações, desde aqueles vinculados ao PT como os Senadores Gleisi Hoffman e Humberto Costa até aos pertencentes ao PSDB, como no caso do Senador Antonio Anastasia, de Minas Gerais, passando pelos peemedebistas Eduardo Cunha e Renan Calheiros, Presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, respectivamente. Do mesmo modo, excluiu do pedido de investigações, por não ver fundamentos razoáveis para tal, tanto o Senador Aécio Neves como a Presidente Dilma Roussef (não foi somente pela incidência do art. 86, § 4º, da CF, como estão dizendo por aí). A atuação do Procurador mostra-se independente e equilibrada, tal como deve ser a ação de um chefe do Ministério Público Federal. Nem engavetador, nem carrasco.

Contudo, é necessário recordar que pedir para que alguém seja investigado jamais pode ser considerado como presunção de culpabilidade, nem mesmo relativa. Aos juristas que defendem o contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal só no discurso, lembro que estes são princípios constitucionais básicos aplicáveis a quem quer que seja. Petistas não estão excluídos de sua proteção. Até mesmo políticos como Eduardo Cunha ou Renan Calheiros, pelos quais não nutro nenhuma simpatia, são protegidos por eles. Garantias constitucionais não existem para proteger apenas a quem nos agrada, mas a todos.

Por outro lado, aos ensandecidos de plantão, é preciso recordar também o quanto essas presunções absolutas de culpabilidade, muitas delas factóides midiáticos, já prejudicaram injustamente pessoas inocentes. Que o digam casos como o da Escola Base, em que destruíram a vida dos donos do colégio com infundadas acusações de pedofilia; como o de Ibsen Pinheiro, quando movimentações de US$ 1 mil viraram US$ 1 milhão e ele foi massacrado pelo mau jornalismo e condenado por quebra de decoro parlamentar, só sendo moralmente reabilitado muitos anos depois; como o de Alceni Guerra, cujo “crime” foi ser Ministro do Governo Collor, foi envolvido no “escândalo das bicicletas” (superfaturamento em seu Ministério), mas inocentado logo depois pelo STF; o caso do próprio Humberto Costa, cujo nome foi envolvido na chamada “máfia dos vampiros” em plena campanha eleitoral para o governo do Estado de Pernambuco em 2006, para anos depois ser absolvido à unanimidade pelo Pleno do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (até hoje tem gente afirmando que ele é mensaleiro ou estava envolvido na "máfia dos sanguessugas", episódios em que ele sequer foi citado); ou ainda o caso de Luiz Gushiken, recentemente falecido em razão de câncer e que sofreu durante anos de depressão profunda por ter tido seu nome envolvido no caso do mensalão, achincalhado durante anos até ver o próprio Procurador-Geral da República pedir o arquivamento das investigações contra ele.

Pois é. Muito pior do que deixar culpados escaparem, é ver pessoas serem condenadas sumariamente pela imprensa e população, sujeitas a profundo linchamento moral e anos depois constatarem a sua inocência. O Estado democrático de direito está aí exatamente para evitar que tais situações ocorram.

Posso ser antiquado, posso ter ficado démodé, careta e conservador, mas continuo acreditando no cumprimento da Constituição e de seus princípios basilares e no seu alcance a todos sem distinções nem seletividades político-partidárias ou ideológicas. Para mim, devido processo legal, contraditório e ampla defesa não é só discurso ou mero formalismo; é a própria essência da democracia e do Estado de direito. E fico satisfeito em ver que o atual Procurador-Geral da República também parece trilhar esse caminho, não obstante as pressões que deve estar sofrendo.

Em tempo: aos indignados com o caso Genoíno, uma explicação: o indulto é previsto no art. 84, XII, da Constituição, e todos os anos o/a Presidente da República tem a obrigação de editar o Decreto que contém as previsões abstratas às quais o indulto pode ser aplicado. Desde 2010 é prevista a regra que é aplicável a todos os presos do Brasil e que foi aplicada a José Genoíno, que é o cumprimento de pelo menos um quarto da pena, estar em regime aberto, a pena remanescente ser menor que 8 anos (a total de Genoíno foi de 4 anos e 8 meses) e as regras da Lei de Execução Penal  quanto à remição (ele teve parte da pena legalmente remida) e bom comportamento carcerário. Se a regra é branda demais, que se possa rediscuti-la. Mas se ela é aplicável a qualquer outro preso, por que não o seria a ele?

O antipetismo não pode servir de parâmetro para condenações. Qualquer dos ladrões do erário público deve ser condenado pelo que efetivamente fez, não pela sua vinculação política ou partidária. Tão óbvio, mas tão esquecido. 

Ser legalista e defender a Constituição parece ter se tornado revolucionário no Brasil atual. Mas o direito constitucional ainda resiste!

sábado, 10 de janeiro de 2015

Sobre acadêmicos e ideólogos

Nos últimos anos, a informação tem circulado, através dos novos mecanismos de seu compartilhamento, especialmente  redes sociais, twitter e congêneres, em uma velocidade realmente incrível. 

A principal vantagem disso é uma disseminação do conhecimento como nunca se viu na história da humanidade. Hoje possuímos ferramentas de acesso ao conhecimento que, se bem utilizadas, podem proporcionar conhecimento e reflexão fundamentais ao progresso humano como um todo. 

Por outro lado, em razão do quantitativo de leituras à disposição e da natural incapacidade da maioria de nós de dar conta de todas elas, parece haver certa superficialidade nas reflexões feitas pelos ávidos leitores de nossos "tempos líquidos" (pegando emprestado termo do sociólogo polonês Zygmunt Bauman). Para compensar a nossa incapacidade, buscamos uma pasteurização das informações para consumo rápido e têm sido cada vez mais raras as reflexões feitas com profundidade e objetivando real produção de conhecimento, notadamente nas ciências humanas e sociais.

Isso inevitavelmente conduz a certa tensão entre ciência e ideologia. Estas sempre tiveram pontos de contato e de atrito entre si, pois dizem respeito ao conhecimento humano como um todo. Aprioristicamente, não há qualquer problema em um acadêmico ter posições políticas e/ou ideológicas (eu próprio tenho por hábito externar minhas opiniões nesse sentido sem nenhum problema), bem como um militante ou ativista do que quer que seja ingressar no meio acadêmico para construir um trabalho científico, uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado. O principal problema se dá quando se misturam as perspectivas de modo que o ideólogo queira simplesmente dar uma "roupagem científica" à sua visão de mundo ou que o acadêmico queira se valer de sua posição de respeitabilidade no campo científico para afirmar, indiretamente na maioria das vezes, que sua ideologia seja ciência.

É necessário que as perspectivas sejam separadas. Apesar dos pontos de contato, ciência e ideologia são campos distintos do conhecimento. Se desejamos fazer ciência, dentre outras coisas, não podemos condicionar pret-a-porter o resultado de nossas investigações. Um acadêmico não pode condicionar suas investigações à sua percepção ideológica pessoal, ainda que esta possa ter sido o estímulo para a pesquisa. Ainda que o doxa esteja no coração da epistéme, como afirmava o querido e saudoso mestre Luis Alberto Warat quando refletia sobre as relações entre as perspectivas científica e opinativa, é preciso diferenciar o estímulo que temos face às nossas circunstâncias pessoais e posições ideológicas em pesquisar determinados temas e as conclusões às quais podemos chegar diante dos dados coletados e de sua análise.

Ciência não é para aqueles que estão preocupados em impor sua visão aos demais, em querer estarem certos a todo custo. Não é para aquele que menospreza o outro por que é de ideologia ou de religião diferente, ou simplesmente possui uma visão de mundo distinta. Ciência é para quem tem mais dúvidas de que certezas, para quem está disposto a mudar suas convicções, mesmo as mais profundas, caso se evidencie cientificamente que as mesmas estão equivocadas. 

Para se fazer pesquisa científica genuína, é preciso honestidade intelectual e humildade. É preciso ter metodologia apropriada, delimitação epistemológica de seu objeto, seguir os passos necessários, manejar os dados colhidos com precisão e sem deturpações e traçar conclusões que nem sempre serão aquelas às quais o pesquisador gostaria de ter chegado. Um liberal pode fazer uma pesquisa sobre políticas intervencionistas do Estado e chegar à conclusão de que estas foram benéficas ao desenvolvimento econômico. Do mesmo modo, um socialista pode fazer uma investigação sobre a privatização de setores da economia e concluir que isso gerou uma desigualdade menor de renda naquela dada sociedade. 

Quem deseja fazer ciência com seriedade (sinceramente não vejo como seria feita de outro modo) precisa ter esse espírito. Levar em conta a máxima socrática da humildade epistêmica, difundida modernamente por Karl Popper (e tão esquecida em tempos de discursos intolerantes) de que "eu posso estar errado e você pode estar certo" e que, se nos encararmos assim, de modo recíproco, juntos podemos nos aproximar da verdade (que aqui teria o sentido mais aproximado ao de verossimilhança).

Portanto, amigo, se você deseja fazer uma boa dissertação de mestrado ou tese de doutorado, em resumo, um bom trabalho científico seja ele de que natureza for, trate de observar aquilo que foi referido nos parágrafos anteriores. Academia não é lugar para conhecimento superficial, leituras apressadas e ausência de reflexão, não obstante isso infelizmente ocorrer. Não é lugar para os que só querem confirmar suas "certezas" e "verdades". Ao contrário: no meio acadêmico, é necessário mais maturação de leituras e reflexões aprofundadas; mais conhecimento genuíno e menos "achismo"; menos arrogantes verdades "absolutas" e mais disposição dialógica; mais estudo sóbrio e menos verborragia; é sobretudo questionamento de ideias e não ataque às pessoas.

Se você não concorda com isso, tudo bem. Pode ser um excelente ideólogo e defender com ardor suas visões de sociedade e de mundo. Pode ser um ótimo político e exercer com competência cargos legislativos, administrativos ou judiciais. Pode ser um brilhante advogado, juiz ou promotor.

Mas, decididamente, seu lugar não é a academia.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Sobre Dilma, PT, PSDB e Universidade Federal: um mísero testemunho



Tenho por hábito, mesmo em debates político-eleitorais acirrados, não demonizar governos. Tratar, como muitos fazem, um lado da disputa como o bem absoluto e o outro como o mal absoluto não permite qualquer discussão realmente séria. Meu compromisso com a verdade, com o debate civilizado, com a pré-condição de se respeitar as pessoas e praticar a máxima da tolerância (por mais que alguns já tenham me chamado de desonesto ou vigarista por isso – pasmem, é verdade! – já que existem os fundamentalistas que acham que ou você está incondicionalmente com eles ou é um crápula) me coloca de antemão no polo oposto do discurso do ódio, do binarismo bem x mal e do falseamento de informações para beneficiar candidaturas ou pontos de vista. Isso venham de onde vierem, seja das candidaturas que eu defendo ou das outras. Em razão disso, nunca me abstive de criticar publicamente governos, mesmo aqueles os quais votei e apoiei. Neste mesmo blog há inúmeros posts com críticas abertas aos governos do PT, mesmo tendo votado neles.

Acredito que os governos FHC, Lula e Dilma têm seus méritos e deméritos, como todos, e que o fato de fazermos uma opção deve ser basicamente no sopesamento daqueles e não em acreditar que um seja o mal absoluto e o outro o bem absoluto. Em meu caso, nunca deixei de reconhecer os méritos do governo tucano no que diz respeito à estabilidade monetária, controle da inflação e maior responsabilidade com as contas públicas comparativamente aos seus antecessores. Contudo, as opções políticas do que fazer em termos de projetos para o país me pareceram profundamente equivocadas em sua maioria. E no tratamento com a Universidade Federal, isso se mostrou de modo claro e latente.

Acho curioso como muitos dos atuais alunos da FDR que apoiam entusiasticamente qualquer alternativa antipetista (na base do "vale tudo para tirar o PT do poder") parecem desconhecer por completo o que foram os anos tucanos para a mesma. É compreensível, pois os mais velhos em geral estão na faixa dos 22/23 anos, se formando, considerando-se, portanto, que nasceram por volta de 1992 e eram crianças durante o governo FHC. Os mais novos nasceram por volta de 1996/1997 e possuem somente a realidade recente para análise. Especialmente a eles, trago este testemunho.

Apesar de alguns méritos gerais, eu não tenho dúvidas em afirmar que o governo FHC foi no que diz respeito ao tratamento com a Universidade Federal, o pior do que todos os governos pós-ditadura. Fui aluno e professor substituto nos anos tucanos na Faculdade de Direito do Recife e o que vi foi: professores se aposentando em massa (os que podiam fazê-lo) para escapar das novas regras previdenciárias com ameaças de retroatividade; mais da metade das disciplinas da tradicional Faculdade entregue a professores substitutos (temporários) em razão da ausência quase total de contratação de novos docentes permanentes para substituir os aposentados; salas de aula precárias, sem ar condicionado ou ventilador, rebocos caindo, a ponto do poder judiciário ter determinado a interdição de várias salas de aula pelo risco de vida que as quedas de reboco poderiam provocar aos alunos, docentes e funcionários; até giz (isso, ainda era quadro de giz) nós professores tínhamos que comprar com nosso dinheiro (que, diga-se de passagem, estava com o menor poder de compra em quase 40 anos, pior nesse caso até mesmo do que na ditadura); os vídeo-cassetes, DVDs e TVs estavam quebrados e não havia verba para seu conserto (lembro que não poucas vezes tive que levar meu vídeo e minha TV para mostrar filmes temáticos aos alunos); os professores e funcionários estavam há anos sem aumento, nem mesmo reposição inflacionária houve; e o investimento em pesquisa foi cortado drasticamente, com a contínua diminuição de bolsas e financiamentos de projetos importantes sendo a regra. E isso era em todo o país e em todos os cursos, incluindo nossa UFPE. 

E o que temos hoje? 

Quase todos os professores são efetivos (eu próprio ingressei por concurso público em 2006), os salários melhoraram (embora não tanto quanto eu ache que deveria), há plano de cargos e carreiras (com defeitos, mas há), as salas de aula possuem ar condicionado, estrutura de som e data show, não precisamos mais comprar do próprio bolso material básico de trabalho; o espaço físico foi completamente reformado, das salas de aula aos auditórios, para não falar da recuperação do Salão Nobre e do Espaço Memória; hoje temos bolsas e financiamentos de projetos científicos em muito maior número. Ademais, a autonomia das universidades é maior e a interferência do governo, menor.  De uma Universidade baixo astral e decrépita no início da década passada, temos hoje uma Instituição pulsante, vibrante, com produção científica em ascensão e com cada vez maior interlocução com a sociedade.Isso sem falar nas políticas inclusivas que tornaram a Universidade Federal mais aberta aos estudantes pobres e negros, sendo hoje uma Instituição mais miscigenada e interclassista, consequentemente mais democrática.

É lamentável dizer isso, mas o governo do Presidente-Professor, intelectual brilhante com formação na Sorbonne e grande pensador das questões sociais brasileiras, foi paradoxalmente o pior da história democrática recente para a Universidade Federal, ao passo que o governo do "Presidente analfabeto" que nunca sentou num banco de universidade para estudar foi disparadamente o melhor. Dilma não foi tão boa como Lula, fizemos inclusive greve contra ela em 2012. Mas ainda assim, incomparavelmente melhor do que os tucanos que tentaram destruir a Universidade Federal por inanição, em minha pobre opinião. 

A posição dos reitores das Federais não é à toa. Até esperava que Aécio prometesse algo diferente para a Universidade, fizesse talvez uma mea culpa do que os tucanos fizeram entre 1995 e 2002, mas nem uma única palavra... E com o guru econômico Armínio Fraga, um homem que parou nos anos 90 em termos de pensamento econômico e acredita que o salário mínimo é "alto demais", vejo que as ideias tucanas sobre a Universidade pública infelizmente parece não terem mudado. 

Diante disso, não tenho alternativa senão votar em Dilma, mesmo não estando satisfeito com o governo dela, principalmente do ponto de vista da gestão. Há outros motivos também, mas como o post é específico sobre a Universidade me limitei a isso.